O Comité Olímpico de Portugal (COP) foi esta quinta-feira palco da conferência final do programa “Pelo Respeito”, intitulada “Tolerância Zero a todas as formas de violência e abuso”, em que a proteção de atletas foi o tema principal.
O presidente do COP, Artur Lopes, sublinhou na abertura dos trabalhos que “proteger os atletas – e, por extensão, a integridade de todas as organizações desportivas – é mais do que uma responsabilidade institucional; é uma responsabilidade de todos nós. Saber reconhecer sinais de comportamentos abusivos, saber agir e responder, e, acima de tudo, saber reportar situações de risco são passos fundamentais para construir um desporto onde valores como a ética, o respeito e a segurança prevaleçam e não sejam meras proclamações”.
A violência e os abusos no desporto têm sido marcados por uma “cultura de silêncio” e o presidente do COP alertou para “a falta de fiscalização e a negligência em priorizar a segurança”, que “têm permitido que situações de abuso persistam. Esses problemas não são exclusivos de um país ou continente; eles refletem uma falha sistêmica no desporto em garantir a segurança e o bem-estar dos seus participantes”, disse Artur Lopes.
A conferência contou com a participação de Kirsty Borrows, chefe da Unidade “Safe Sport” do Comité Olímpico Internacional, que fez a comunicação intitulada “Reforçar a proteção no e através do desporto: pensar global, agir localmente”, durante a qual reforçou a ideia de que a proteção de atletas é uma responsabilidade “fundamental”, tendo salientado que “o Comité Olímpico de Portugal é líder pelo exemplo” no trabalho pela proteção de atletas.
Cristina Almeida, diretora do Departamento de Estudos e Projetos (DEP), apresentou o Programa de Integridade “Pelo Respeito” do COP, desenvolvido a partir de 2016, inicialmente centrado na prevenção e combate à manipulação de competições desportivas e que veio a incluir posteriormente a área de proteção de atletas.
Citando Celia Brackenridge, que considera que “o desporto não é um espaço sagrado”, Cristina Almeida explicitou as quatro formas de violência com que o desporto se debate: física, psicológica, sexual e por negligência, salientando que os objetivos do Programa de Integridade do COP passam pela “prevenção e resposta a todas as formas de violência”.
Joana Gonçalves, gestora de projeto do COP, deu a conhecer os recursos de educação e de sensibilização existentes para a proteção de atletas, baseados no princípio dos 3 R: reconhecer, responder e reportar. “Prevenção, sensibilização e capacitação dos agentes desportivos, da base ao alto rendimento”, são os objetivos do programa Pelo Respeito, sublinhou Joana Gonçalves.
Miguel Nery, investigador da Universidade Europeia, apresentou o “Estudo da prevalência de violência contra atletas”, de que é co-autor juntamente com Thiago Santos, e no qual se conclui que 84,23% dos atletas participantes admitiu ter sido alvo de violência, especificamente 82,4% apontou a violência psicológica/negligência; 57,4% a violência física; e 42,3% a violência sexual.
Seguiu-se a mesa-redonda “Enfrentar a realidade: vulnerabilidades e respostas eficazes na perspetiva de quem está na linha da frente”, com Angélica Kvieckzynski, ex-atleta da seleção brasileira e treinadora de Ginástica, José Matos, coordenador da secção de combate a crimes sexuais da Polícia Judiciária (PJ) de Lisboa, Carla Ferreira, assessora da direção da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), e João Paulo Almeida, diretor-geral do COP, que moderou.
“A primeira vez que falei parece que desisti da minha carreira”, disse Angélica Kvieckzynski, a propósito do momento em que decidiu denunciar as situações de violência de que era alvo enquanto atleta. “Toda a gente se afastou. As atletas foram proibidas de me seguir nas redes sociais.” O resultado, apesar da marginalização que sofreu dentro do sistema, foi compensador: “Mas valeu a pena. Para ver as atletas terem uma realidade diferente da minha, não serem agredidas.” E deixou duas questões para reflexão: “Você bate no seu filho? Porque é que o treinador pode?”
José Matos, coordenador da secção de combate a crimes sexuais da PJ de Lisboa, esclareceu que “nos crimes sexuais há apenas motivação egoísta” dos protagonistas que os consumam, a consecução do objetivo desportivo não está presente, em nome do qual muitas vezes os atletas permitem abusos.
O peso da “cultura do silêncio”, do encobrimento, foi central no discurso de José Matos, que estimulou os abusados a denunciarem. “Desafiamos a que tenham a coragem de dar a cara.”
Carla Ferreira, assessora da direção da APAV, reforçou a ideia de que “o silêncio só ajuda uma pessoa, a pessoa que agride” e apelou à necessidade de existir “consciência de reportar situações para que possam ser investigadas” pelas autoridades policiais. “O tempo que alguém perde a fazer mal que o perca a fazer bem”, pediu.
“Safer Grassroots Sport”
O dia de trabalho foi igualmente marcado pela reunião intermédia do projeto “Safer Grassroots Sport”, financiado pelo programa Erasmus+ e de que o COP é coordenador, com a participação das entidades parceiras - os Comités Olímpicos da Eslovénia e da Albânia, o Ministério do Desporto e Juventude da Bulgária, a Universidade de Vic (Espanha), a Sportieq (Bélgica) e a Qantara Sports (Portugal) - e na qual foram apresentadas ferramentas práticas para clubes desenvolveram uma abordagem proativa em relação às questões da proteção de atletas e que juntou mais de meia centena de participantes online.
João Paulo Almeida, diretor-geral do COP, considerou o GRASS “um projeto muito desafiante”, sendo “muito relevante falar num contexto de tolerância zero, para criar um ambiente mais seguro no desporto”, tendo apresentado Angélica Kvieckzynski como um exemplo.
Daniel Rhind, professor da Loughborough University, do Reino Unido, especialista em Paridade, Diversidade e Inclusão, proferiu a comunicação principal intitulada “Safeguarding sport within communities”, na qual reforçou que “a proteção dos atletas nunca é um assunto encerrado” e deve manter todos os agentes alerta. “o ‘safeguarding’ é um assunto de todos” e não de um conjunto de agentes em específico, explicou Daniel Rhind.
Cristina Almeida, diretora do DEP, fez o enquadramento do projeto que decorre desde o início de 2024 até ao final de 2025: “O desporto oferece grandes benefícios, mas também comporta grandes riscos. É importante que os clubes estejam preparados para lidar com situações de abuso e violência.”
Uma das ferramentas disponíveis é o Instrumento de autoavaliação para clubes desportivos de base, apresentado por Bruno Avelar Rosa, da Qantara Sports. A partir dele os usuários podem aceder às ferramentas fornecidas pelo projeto GRASS para começar a fazer melhorias, havendo uma ligação direta entre o meio de diagnóstico e o remédio.
Evy van Coppenolle, da Spotieq, fez esclarecimentos sobre a ferramenta digital para auxiliar os clubes a criarem uma política de proteção no desporto, em três níveis: medidas básicas; fazer algo mais ou desenvolver uma abordagem global.
Renato Bernardino (Benedita Hoppers Club), João Diogo (Associação Desportiva de Castelo de Vide), Ana Santos (Centro de Solidariedade Social do Pinhal de Frades), Eduardo Peixinho (Clube Naval de Portimão), Luís Rodrigues (Guimagym) foram os membros dos clubes participantes no projeto que deram testemunho.