24 Abr 2024
O COP e o 25 de Abril

O regime democrático assinala, neste cinquentenário do 25 de abril, a maturidade de um sistema político - consagrado constitucionalmente em 1976 – que suplanta a duração da ditadura que o precedeu.

Para muitos, este facto trata-se de um pormenor, pois nasceram, cresceram e viveram num sistema cujos direitos, liberdades e garantias têm por adquiridos, dissipando da memória as circunstâncias sociais, culturais, políticas e económicas herdadas de um regime ditatorial que oprimia, perseguia e reprimia quem ousava questionar o modelo vigente durante mais de quarenta anos em Portugal.

Nestas ocasiões torna-se tentador mergulhar em exercícios retrospetivos de balanço, de catarse ou de alguma futurologia... Para uns o Ideal de Abril encontra-se por cumprir, pois o rumo que o País levou e o seu desenvolvimento ficaram aquém das suas expectativas. Para outros o projeto de sociedade é, hoje, distinto dos muitos que fervilhavam nos alvores do Verão Quente. Porém, para quase todos, a mudança é, e foi inequívoca.

Volvidos cinquenta anos, embora os dados estatísticos cubram todas as áreas, não existe ainda suficiente investigação científica e distância histórica para uma análise social, cultural e política de largo espectro e neutralidade axiológica sobre a democratização do nosso País, atentas as marcas profundas deste processo na ordem política e moral da nossa sociedade, onde alguns protagonistas relevantes na transição democrática ainda exercem cargos de natureza política e intervenções públicas com militância cívica ativa.

Neste complexo itinerário, e pese embora o risco de posições polarizadas que comprometem o valor do pluralismo democrático, o Comité Olímpico de Portugal (COP) não se pode escusar de, nesta data, abordar o profundo impacto do 25 de abril no desporto português.

Ainda que o desporto tenha sido um tema frequentemente alheio aos historiadores e às ciências sociais e humanas, “à indiferença dos historiadores não corresponde a indiferença dos que fazem a História”, pois aqueles que, no desporto, e através do desporto, lutaram para a democratização do nosso País alcançaram conquistas sociais e políticas incontornáveis.

Desde logo a democratização da prática desportiva, como um direito constitucional a todos reconhecido, bem como a liberdade de associação. Pilares essenciais onde se erigiu o nosso sistema desportivo, e o seu núcleo essencial de desenvolvimento – o clube e a coletividade - que possibilitaram, em todo o País, aos mais diversos segmentos populacionais, e a ambos os sexos, generalizar o acesso à prática desportiva.

Mas também o inestimável contributo democratizador na formação cívica individual e coletiva que o desporto, no seu processo organizacional e ligação às comunidades locais, possibilitou pela adesão de uma massa de voluntários, técnicos e dirigentes que o resgataram da segregação elitista e classista de uma contingência de completa subalternidade onde viveu mergulhado.

Nesta medida, a democratização do desporto está longe de estar circunscrita apenas à rutura com uma atividade de promoção do regime ditatorial e de higienização da sua juventude, para uma atividade de entretenimento, vagamente promotora da saúde e integração social de alguns segmentos populacionais, ocasionalmente mobilizadora das emoções do povo aquando de conquistas desportivas dignas de relevo.

Esta é, ainda hoje, uma das suas maiores pechas na valorização social do desporto e uma das maiores frentes de batalha para o posicionar num lugar menos periférico na agenda política, científica e cultural do País, a qual compromete as reformas necessárias ao seu desenvolvimento que, em várias dimensões e indicadores, persistem em colocá-lo na cauda da União Europeia.

"Um País pode considerar-se realmente desportivo quando a maior parte dos seus habitantes sente o desporto como uma necessidade pessoal". Em cinquenta anos estamos num patamar distinto para concretizar este desígnio de Pierre de Coubertin daquele com que se confrontaram os pioneiros da democratização desportiva em Portugal, a quem, nesta ocasião, o COP rende a sua homenagem.

Porém, na marcha inexorável do tempo, os débeis indicadores de competitividade e participação desportiva demonstram as limitações que ao longo da vigência do regime democrático continuam a perdurar para concretizar este propósito e, efetivamente, materializar o direito a todos à cultura física e ao desporto que os pais fundadores da nossa democracia pugnaram para ser reconhecido no artigo 79.º da Constituição da República Portuguesa.

Saibamos herdar este legado e, inspirados no seu exemplo, ter o engenho de, ativamente, contribuir para suprir barreiras que, passado meio século, continuam a condicionar o desenvolvimento e a democratização desportiva do País.


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