12 Out 2021
Patrícia Mamona e a medalha olímpica: "Foi um momento mágico, mas tive de trabalhar muito"

Como é que a Ciência ajudou Patrícia Mamona a conseguir resultados de excelência e a chegar ao pódio olímpico do triplo salto nos Jogos Olímpicos Tóquio 2020. A questão colocada no Festival Internacional de Ciência (FICA), em Oeiras, teve esta terça-feira uma resposta em várias dimensões que ajudou a audiência preenchida por jovens estudantes a perceber que sem trabalho de elevada qualidade, em equipa, é difícil chegar lá, ao “momento mágico” de conquistar a medalha de prata.

“Foi um momento mágico, mas tenho a plena consciência que tive de trabalhar muito, não foi do dia para a noite”, confessou Patrícia Mamona a abrir uma sessão moderada por Pedro Roque, diretor desportivo do Comité Olímpico de Portugal (COP), que lembrou a frequência com que a atleta da Equipa Portugal bate o recorde nacional do triplo salto sempre nos grandes momentos, nas grandes competições, tal como nos Jogos Olímpicos, onde passou a barreira dos 15 metros (15,01).

Patrícia Mamona lembra que tudo teve início lá bem atrás. “Eu comecei com a vossa idade. Comecei com o jogo da mosca… não sei se sabem o que é… e depois as coisas começaram a sério.” Ao lado de José Sousa Uva, o seu treinador, de Cláudia Minderico, nutricionista na Direção de Medicina Desportiva do COP, e Duarte Araújo, professor de Psicologia do Desporto na Faculdade de Motricidade Humana (FMH), responsável pelo Laboratório de Perícia no Desporto, Patrícia Mamona sublinhou: “O momento mágico não foi feito sozinha, mas graças a esta equipa. Eu estava preparada para estar no pódio.” E para lá chegar teve de passar muitas etapas. “No início não conseguia lidar com a pressão, mas aprendi a usá-la a meu favor”, começando a bater o recorde nacional nos grandes especiais.

Desafiada por Pedro Roque a revelar como enfrenta a pressão, a medalha de prata em Tóquio 2020 explica qual o principal fator nessa parte do processo. “A melhor forma para lidar com a pressão é através da experiência. Uma simples respiração pode ajudar a controlar-me e a ficar mais focada no meu objetivo.”

Antes de explicar como foi ajudar Patrícia Mamona a chegar à medalha olímpica, o seu treinador, José Sousa Uva, focou-se na jovem audiência para uma mensagem mobilizadora: “Façam desporto, que é a melhor coisa que há no mundo. Façam desporto, não fiquem em casa.” Depois avançou: “Nós estávamos muito confiantes, trabalhámos muito. Temos uma grande equipa. Mas não estávamos demasiado confiantes, porque às vezes a competição corre mal. Felizmente, correu bem e eu tive o privilégio de poder ajudar a Patrícia.”

Munido de dois aparatos tecnológicos, José Sousa Uva sublinhou a importância de o treino de Patrícia Mamona ser amparado pela ciência. “Esta célula fotoelétrica, que funciona como um cronómetro eletrónico, diz a que velocidade corre a Patrícia. E sabem que para saltar muito é preciso ir-se rápido... esta peça colocada na barra mede também a velocidade a que a Patrícia faz os levantamentos. São exemplos de como a ciência ajudou a Patrícia a ganhar a medalha nos Jogos Olímpicos.”

Cláudia Minderico, nutricionista na Direção de Medicina Desportiva do COP, confessou ter sido “absolutamente excecional poder conviver e participar neste processo” de ajudar Patrícia Mamona a chegar ao pódio olímpico. E explica qual foi a sua parte: “Para treinar precisamos de energia e a Patrícia já se alimentava muito bem. Conhecendo o tipo de energia que era preciso disponibilizar para o momento certo, aí procurávamos o nutriente certo. Mas não era só para o treino, era também para os outros momentos de recuperação para o treino seguinte. A ciência trouxe um contributo para a pequena melhoria da Patrícia, porque ela já era muito boa. Conseguimos juntar mais um pozinho.”

Duarte Araújo, professor na FMH, abriu a sua intervenção com um mote visto no ecrã pela audiência: usar a ciência para dar o melhor de si.

“Estas pessoas são muito boas porque dão o melhor de si”, disse Duarte Araújo, apontando para um slide onde se via o pódio do triplo salto em Tóquio 2020, com a venezuelana Yulimar Rojas (ouro), Patrícia Mamona (prata), e espanhola Ana Peleteiro (bronze). “A Yulimar (1,92m de altura) tem uma vantagem de quase 30 centímetros sobre a Patrícia (1,66m), mas as outras atletas estudam a técnica da Patrícia, porque ela é a melhor a saltar.” O professor da FMH defendeu então que “ser saudável é conseguir-se fazer aquilo de que se gosta” e desvendou a sua missão junto da atleta: “Tática é como se aborda a competição, foi esse o trabalho que fiz com a Patrícia. A psicologia só tem impacto se for científica.” E insistiu na tese de “dar o melhor de si” para chegar ao grande resultado, mas não apenas na competição. “Ela não pode negligenciar as outras partes da sua vida e dá o melhor de si nos outros contextos: familiar, nos estudos de Engenharia Biomédica e enquanto figura pública. A marca dos 15 metros esteve sempre presente, nunca foi irreal, e não é que ela fez 15,01? Temos uma grande campeã connosco”, concluiu.

Coube então a Patrícia Mamona explicar como gere todas as áreas da sua vida para chegar ao objetivo. “Sou bastante organizada, porque sei que todas estas partes são muito importantes para o resultado final. O meu bem-estar tem de ser equilibrado. Para mim não é trabalho, é um gosto, não custa, é fácil gerir todas estas áreas.”

José Sousa Uva desfez dúvidas quanto à velocidade do percurso, apesar de Patrícia Mamona ser veloz. “Nós estivemos a aprender e as coisas foram crescendo devagarinho. A nutrição, a psicologia, a biomecânica, a fisioterapia… tudo isso foi sendo introduzido com o tempo. Como os treinadores não são super-homens, precisam da ajuda de outros super-homens. O treinador domina a metodologia do treino, mas precisa de ajuda. A única coisa que nos move é fazer a Patrícia saltar um pouquinho mais.”

Cláudia Minderico explicou que o regime nutricional encontrado para a atleta olímpica é resultado do conhecimento que foi construindo, “sabendo os nutrientes de que ela precisava e procurando os alimentos. Porque não podemos comer sempre o mesmo. A alimentação tem de ser o que me dá prazer, que me dá energia e permite ir mais longe. Todos os caminhos vão dar a Roma, temos é de encontrar o caminho certo para cada pessoa.”

A pressão é o tema sempre presente na alta competição. “Os atletas enfrentam-na todos os dias”, referiu Duarte Araújo, mas “tudo é treinável. A Patrícia trabalha muito todos os aspetos, por isso é a segunda melhor do mundo. Os bons atletas pensam como é que conseguem tirar o melhor das suas caraterísticas. Ela pensou naquilo que podia fazer para saltar mais longe.”

Patrícia Mamona terminou a explicar, a pedido do moderador Pedro Roque, como foi fazer mais dois saltos, depois de ter chegado aos 15,01 à quarta tentativa e de percecionar que a medalha olímpica dificilmente lhe fugiria. “Já tinha treinado mentalmente e aprendi que cada oportunidade tem de ser aproveitada ao máximo. Depois dos 15,01 sabia que tinha mais duas oportunidades e queria saltar mais. Nos Jogos Olímpicos nada é garantido até ao fim, temos de estar preparados para saltar mais.” E ainda teve tempo para mais um apelo sugestivo aos jovens estudantes que muito a aplaudiram no auditório instalado nos jardins do Palácio do Marquês, em Oeiras. “O Atletismo tornou-se a minha paixão e a minha profissão. Aconselho a que façam desporto e nunca se esqueçam de estudar. Eu estudo Engenharia Biomédica porque sei que a minha carreira um dia vai acabar.”


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