If we can have peace for 16 days, then maybe, just maybe, we can have it forever
O desporto não pode impor a paz. Mas pode inspirá-la.
É com esta esperança que o Movimento Olímpico acredita que «se é possível ter paz durante 16 dias, então talvez, apenas talvez, seja possível tê-la para sempre».
A Trégua Olímpica é hoje a expressão do desejo da Humanidade para construir um mundo melhor baseado nas regras da competição justa, da colaboração, da paz e da aceitação, fazendo a ponte da velha e sábia tradição da Ekecheiria para o objetivo prioritário das Nações Unidas: a manutenção da paz e segurança internacionais.
Ao reconhecer ao Comité Olímpico Internacional o estatuto de observador da Assembleia Geral das Nações Unidas, a ONU enfatizou o papel do movimento desportivo internacional no envolvimento e na utilização do desporto como meio de mudança e de desenvolvimento social ao serviço da Humanidade. Defende hoje que o desporto tem de ser incluído nas medidas de recuperação para que possamos sair da crise com a credibilidade, confiança e integridade reforçadas, evitando que os problemas que existiam antes se perpetuem para lá do seu fim.
Sabemos como o papel dos Estados e das organizações, a nível nacional e internacional, é crucial para garantir ao desporto as condições estruturais para materializar este propósito de desenvolvimento, sobretudo num contexto de intensificação das perturbações migratórias e de nacionalismos cada vez mais radicalizados.
Também sabemos que a história do Olimpismo e do Desporto tem exemplos contraditórios deste efeito pacificador, alertando-nos para a necessidade da constante mobilização da vontade e capacidade humana para alcançarmos este desígnio.
Por tudo isto, é importante celebrarmos o Dia Internacional do Desporto para o Desenvolvimento e a Paz, uma data que encerra em si a comunhão do Movimento Olímpico com a Comunidade Internacional, sob a égide das Nações Unidas, na promoção da universalidade do desporto ao serviço da aproximação de povos, etnias e religiões, suprindo, de forma porventura única e incomparável, as mais diversas formas de discriminação e intolerância.
O desporto é uma linguagem universal que tem um papel crucial na valorização da dignidade humana. Através do desporto e dos seus valores, podemos unir as pessoas para além das fronteiras, fazer pontes para atenuar as diferenças sociais, culturais e económicas. O desporto pode dar um sentido à vida quando esta parece perdida. O desporto ensina-nos a incluir, a não discriminar, e mostra-nos como pode ser a participação igualitária. O desporto desafia estereótipos que nos ajudam a quebrar barreiras na sociedade e a impulsionar o progresso em questões que são fundamentais para o gozo dos direitos humanos.
Em 2016, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, Thomas Bach, presidente do Comité Olímpico Internacional, deixou uma mensagem de esperança para todos os refugiados do nosso mundo: “Sem uma equipa nacional a que pertencer, sem uma bandeira atrás da qual marchar, sem hino nacional a ser tocado, estes atletas refugiados serão recebidos nos Jogos Olímpicos com a bandeira e o hino olímpico. E terão uma casa na Aldeia Olímpica com os outros 11.000 atletas de 206 Comités Olímpicos Nacionais”. Cinco anos depois, com Tóquio à vista, ainda é necessário reforçar esta mensagem e 50 atletas-refugiados sonham com esta oportunidade.
Não temendo a inexperiência, indo além do entusiasmo do momento mediático e da comoção das imagens fortes, o Comité Olímpico de Portugal mobilizou-se e estendeu os braços (no que eles representam de ação concreta) ao acolhimento de dois promissores jovens que treinam arduamente para integrar a Equipa Olímpica de Refugiados. Com a mesma coragem e a mesma persistência que os trouxe até nós, agora o velocista Dorian Keletela e o pugilista Farid Walizadeh procuram manter-se em forma para atingir a qualificação que lhes permitirá concretizar o sonho olímpico.
Num outro plano, discretamente e sem transformar o apoio solidário em mais um espetáculo mediático, o Comité Olímpico de Portugal tem mantido um programa que apoiou cerca de um milhar e meio de refugiados e deslocados em busca de asilo, oferecendo material desportivo para a prática de diversas modalidades e acompanhamento na integração no tecido associativo e nas comunidades locais dispersas pelo território nacional daqueles com capacidades desportivas para a vertente competitiva. Para muitos, estas experiências desportivas são o primeiro elo de coesão entre si e a comunidade de acolhimento, acentuando o papel do desporto como elemento inclusivo.
Na verdade, antes da sua vinda, a maioria de nós estava longe do drama dos refugiados. A sua chegada desafiou-nos para a necessidade de mobilizar vontades, abrir os braços e os sorrisos, descobrir recursos e meios que estavam à espera de ser ativados… e algo mudou. Teve de mudar porque não podemos ser indiferentes ao Outro, que, afinal, poderíamos ser nós.
Em dia de celebração do Desporto para o Desenvolvimento e a Paz, o apelo é para não abdicar dos valores que civilizacionalmente o moldaram e que o tornam uma expressão de cultura e valor formativo.
Hoje, afirmamos o Respeito (individual, coletivo e pelo Mundo), a Amizade (formando elos mais fortes para construção de um mundo melhor e mais pacífico) e a Excelência (dando o nosso melhor, no jogo e na vida).
Neste Dia Internacional do Desporto para o Desenvolvimento e a Paz vamos refletir sobre o contributo do desporto para construir um mundo melhor e juntarmo-nos aos que mantêm vivos os ideais de Pierre de Coubertin e o seu legado, que se iniciou no dia 6 de abril de 1896, data em que começaram os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna.
Maria Machado
Gestora de Projeto do Comité Olímpico de Portugal