O Comité Olímpico de Portugal distinguiu esta segunda-feira Ana Matias, Cesina Bermudes (a título póstumo), Cristina Almeida, Dalila Lira, Maria João Cascais e Sandra Bastos, seis mulheres que assumiram papéis relevantes em áreas de atividade ligadas ao Desporto. A homenagem diz respeito ao Dia Internacional da Mulher (DIM), mas a entrega das distinções só agora aconteceu na sede do COP, devido aos constrangimentos impostos pela pandemia da Covid-19.
Carla Ribeiro, vogal da Comissão Executiva do COP, sublinhou que, apesar do atraso da cerimónia em relação ao DIM, o COP não quis deixar de “sublinhar a relevância que dá à paridade de género”, nunca hesitando na realização de iniciativas que “promovam e valorizem a presença da mulher no desporto."
Elisabete Jacinto, presidente da Comissão Mulheres e Desporto (CMD) do COP, disse na sua intervenção: "Se queremos uma sociedade justa e igualitária para a qual homens e mulheres podem contribuir em pleno com as suas capacidades, temos de tomar medidas interventivas que desencadeiem uma verdadeira mudança na forma como percepcionamos o papel das mulheres na sociedade. Essa mudança será facilitada se recorrermos ao desporto pois este constitui um importante meio para a formação dos jovens.” As mulheres homenageadas receberam a distinção das mãos das representantes da CMD do COP, Elisabete Jacinto, Ana Celeste Carvalho, Ana Vital e Melo e Filipa Cavalleri.
ANA MATIAS - Empreendedorismo
Ana Matias, 58 anos, desenvolveu a sua atividade profissional em marketing desportivo. Foi assessora de imprensa, relações públicas e gestora de patrocínos, com intervenção direta no futebol (Benfica) e Fórmula 1 (Forti Corse), e gestão do Prémio Parmalat Fair- Play. Dirigiu a FutePro – Promoção e Imagem do Futebol Profissional (1996/1998). Teve a seu cargo também a Direção de Comunicação e Imagem da Sporting SAD (1998). Foi manager da ALL Sports Marketing (1998/2001) - gestão de ações e/ou clientes intervenientes no panorama desportivo e produção do LOGOTIPO HUMANO para a promoção da Candidatura Portuguesa ao EURO 2004, evento que conquistou o recorde do mundo do Guinness. Foi Adida de Imprensa da Missão de Portugal aos Jogos Olímpicos Sydney 2000. Foi igualmente assessora de comunicação do Ministro Adjunto e da Juventude (1988/89) e assessora de imprensa do Secretário de Estado da Juventude (1992).
Na cerimónia, Ana Matias lembrou algumas fases da sua carreira: “Foi preciso alterar os estatutos da antiga federação de motociclismo para eu poder entrar e no futebol diziam que as mulheres davam azar. O Comité Olímpico teve abertura de mente para aceitar as minhas ideias. Quero dividir a distinção com os dirigentes do Comité e com os atletas.”
CESINA BERMUDES (a título póstumo) - Promoção do desporto
Cesina Borges Adães Bermudes nasceu a 20 de maio de 1908, em Lisboa, tendo falecido a 9 de dezembro de 2001, com 93 anos. Filha de Cândida Bermudes, doméstica, mulher instruída e de grande cultura, e do desportista e escritor teatral/ ensaísta Félix Bermudes, destacou-se na sua juventude, por influência do pai, ao praticar diferentes modalidades desportivas, como a ginástica, a dança, o hipismo, o tiro e o ciclismo, numa época em que poucas mulheres acediam à prática desportiva.
Incentivada pelo pai, participa com sua irmã na primeira Volta a Lisboa em bicicleta, no ano de 1923, organizada pelo jornal O Sport de Lisboa e Benfica, que o seu pai dirigia à época, e vence. Foi também campeã de natação e participou em várias corridas de automóveis.
Cesina Bermudes foi médica obstetra, investigadora, feminista e teosofista portuguesa. Licenciou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa em 1933, fez o Internato Geral em 1933-1934 e o Internato de Cirurgia e a especialidade de Obstetrícia em 1937-1938. Concluiu o doutoramento na Faculdade de Medicina de Lisboa, em 1947, com 19 valores.
Jorge Ferreira da Costa, sobrinho-neto, recebeu a distinção e disse: “Cesina Bermudes não se considerava uma feminista, era uma defensora dos direitos humanos. Ela defendia quem necessitava de ajuda.”
CRISTINA ALMEIDA - Estudos sobre as mulheres
Licenciada em Sociologia, Cristina Almeida é técnica superior na administração pública central na área do desporto, responsável pelo desenvolvimento e operacionalização de programas e projetos, em particular no âmbito da Formação e Qualificação. Tem um diploma de especialização em "Mainstreaming" do Género nas Políticas Públicas, do Instituto Nacional de Administração (INA). Entre 2017 e 2019, foi representante de Portugal no Grupo de peritos do Conselho da Europa e coordenadora nacional dos projetos "Balance in Sport" e "ALL IN Towards gender quality". Lecionou no Mestrado em Sociologia do desporto, organização e desenvolvimento da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (UC Desigualdades de Género no Desporto), em 2015/16. Entre 2013 e 2016, foi membro da Comissão Mulheres e Desporto do Comité Olímpico de Portugal. Em 2015, publicou “A Igualdade de Género no Desporto”, e em 2010 foi co-autora de “Treinadoras: dirigir outros desafios”, com Cristina Matos Almeida e Isabel Cruz.
“Fiz um estudo quando a minha filha Beatriz nasceu. Tínhamos dez por cento de mulheres dirigentes. Ela hoje tem 22 anos e conseguimos evoluir quatro por cento. Isto revela o caminho que ainda temos de percorrer. Todos podemos fazer a diferença”, disse Cristina Almeida.
DALILA LIRA – Arbitragem (Natação)
Dalila Lira nasceu a 25 agosto de 1954 no Funchal, iniciando carreira como Árbitra Nacional de Natação desde 1986. Árbitra Internacional entre 2008 e 2020, esteve presente no Campeonato Europeu Absoluto PL – Eindhoven (2008); Campeonato Europeu PC – Eindhoven (2010); Campeonato Europeu – Dordrecht (2013); Campeonato Mundo – Singapura (2015); e no Campeonato da Europa PL – Helsínquia (2018). Esteve em todas as edições do Setúbal Bay desde 2006.
“A arbitragem não sendo a minha atividade profissional, foi sempre encarada com sentido de responsabilidade. O que começou como hóbi transformou-se numa atividade muito importante na minha vida”, disse.
MARIA JOÃO CASCAIS - Medicina Desportiva
Doutorada em Medicina, com especialidade em Bioquímica, é especialista em Medicina Desportiva pelo Colégio da Especialidade da Ordem dos Médicos. Assumiu funções na Autoridade Antidopagem de Portugal, sendo presidente da Comissão de Autorização Terapêutica. Entre 2014 e 2018 foi responsável pela Gestão do Passaporte Biológico.
Atualmente, Maria João Cascais preside à Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva, tendo sido presidente do Colégio de Medicina Desportiva da Ordem dos Médicos entre 2014 e 2021. É membro da Direção do Colégio da Especialidade da Ordem dos Médicos desde 2005 e da Sociedade de Medicina Desportiva desde 1997. Foi presidente e membro da Comissão Médica do Comité Olímpico de Portugal, entre 2013 e 2016. É membro do Conselho Médico do Comité Olímpico de Portugal.
“Uma carreira não se faz apenas de cargos, faz-se à custa da família e dos mestres. Cheguei aos cargos com a colaboração de todos”, referiu Maria João Cascais.
SANDRA BASTOS – Arbitragem (Futebol)
Sandra Bastos foi praticante de Taekwondo entre os sete e os 16 anos, tendo também jogado Futebol a partir dos 14 anos. Iniciou-se na Arbitragem na época desportiva 2000/01 e subiu à categoria nacional (FPF) em 2003/04 e em 2004 tornou-se árbitra da FIFA, com subida ao grupo de Elite em 2015.
Esteve presente em cinco finais da Taça de Portugal e foi a primeira árbitra a marcar presença no Campeonato de Portugal Liga Revelação Sub-23 Masculino. Já arbitrou nos Jogos Olímpicos da Juventude, tendo estado na final como 4.ª árbitra. Acumula quatro presenças em fases finais do Campeonato da Europa sub-19, com arbitragem da final em 2011, em Itália. Tem duas presenças em Mundiais sub-17, na Jordânia e Uruguai. Arbitrou no Mundial realizado em França, em 2019.
Sandra Bastos não esteve presente por se encontrar a arbitrar uma competição e recebeu a sua distinção o vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, José Couceiro.