A Comissão de Atletas Olímpicos emitiu um comunicado face ao posicionamento assumido pelos partidos políticos concorrentes às eleições legislativas do dia 30 de janeiro, no que ao Desporto diz respeito.
Segue o texto na íntegra:
"Termina hoje a campanha para as eleições legislativas de dia 30 de janeiro, tendo o desporto passado à margem dos temas que os diversos partidos foram paulatinamente apresentando e discutido com o eleitorado, o que revela duas tendências:
· Primeiro, que os partidos não aproveitaram o trabalho que os diversos agentes e organizações do Movimento Desportivo foram cuidadosa e exaustivamente apresentando ao longo do último ano, com vista a salvaguardar a sua sustentabilidade. É importante referir que as medidas apresentadas foram elaboradas com base no estudo não só da realidade nacional, mas também tomando como exemplo boas práticas levadas a cabo no contexto Europeu;
· Em segundo lugar, confirma porque Portugal continua sistematicamente a ter dos piores índices de prática desportiva entre os países da União Europeia, pois o desporto não é valorizado social, nem politicamente, como mais uma vez ficou claro com a ausência de um debate esclarecedor e de medidas políticas concretas para o sector.
Talvez mais importante do que constatar estes factos, que já não surpreendem, seria eventualmente pertinente refletir sobre o que gostaríamos que tivesse sido discutido neste período:
- Num mundo que se modificou da noite para o dia, os atletas deram mostras de uma capacidade de adaptação e resiliência que inspiraram milhões de pessoas por todo o mundo. O desporto constituiu também uma salvaguarda e antídoto em termos de saúde mental de múltiplas gerações. Até que ponto as diferentes abordagens desportivas, desde o lazer ao alto rendimento, contribuíram para que as sociedades enfrentassem tempos tão difíceis? E para quando o reconhecimento do desporto como sector estruturante da sociedade?
- As carreiras desportivas dos atletas de alto rendimento, com particular enfoque nos atletas Olímpicos, consideradas de desgaste rápido, têm muito poucas medidas que transmitam proteção social e estabilidade financeira a quem as abraça. Com múltiplos exemplos de boas práticas neste campo que os mais diversos países Europeus têm consagrado aos atletas, nomeadamente com a sua inclusão em diversos organismos dentro da esfera pública, porque é que Portugal não os segue?
- Se Portugal tem como objetivo figurar entre os países da União Europeia com melhores índices de atividade física, para quando uma aposta séria na promoção da prática de atividade física como verdadeiro cuidado de saúde primário? E como é o que pretende levar a cabo esse desiderato? Qual a estratégia?
- A pandemia trouxe grandes condicionalismos à já débil situação vivenciada pela grande maioria dos clubes e associações desportivas - estruturas nucleares do desenvolvimento desportivo, de ligação às comunidades locais e, fundamentalmente, células-base no início das carreiras desportivas de atletas. Que medidas estão previstas para apoiar os clubes a cumprir a sua missão?
- Faz sentido continuarmos a ter um Instituto do Desporto e Juventude, ou seria do interesse, quer dos jovens, quer do movimento desportivo, que este organismo fosse dividido em dois, um para cada área? Embora ambos os campos se cruzem ao longo da caminhada, as perspetivas são distintas, assim como deveria ser a respetiva tutela. O mesmo poder-se-ia referir em relação à Secretaria de Estado da Juventude e Desporto. Para quando um Ministro verdadeiramente com a tutela do Desporto?
A Comissão de Atletas Olímpicos gostaria de ter presenciado a discussão destes e muitos outros tópicos que o Movimento Desportivo, fruto de uma união e conjugação de esforços, tem colocado à consideração não só da Sociedade, mas também dos partidos políticos e da tutela do desporto.
Sem eco, como se depreende. Mas isso não significa, usando a gíria desportiva, que deitaremos a toalha ao chão. Assim, face a um período onde todos fomos postos à prova, o diálogo, a cooperação e a comunicação são ferramentas fundamentais para a prossecução de um objetivo que sabemos ser comum aos diversos atores do Movimento Desportivo Nacional: proporcionar aos portugueses as condições para que possam desenvolver o seu potencial através do desporto, seja num jogo entre amigos de uma qualquer modalidade coletiva, seja na corrida do bairro, seja nos Jogos Olímpicos, em representação de Portugal.
Cada vez mais, o papel dos atletas estende-se muito para além do plano desportivo. Foram sendo adquiridas competências pessoais, para além daquelas desenvolvidas no plano desportivo, que tornam os atletas referências para a sociedade. Estão cada vez mais bem preparados a intervir em vários domínios da vida do País. E têm a capacidade para tal, sendo uma voz ativa e empenhada na resolução dos problemas de Portugal. Mas não só têm essa capacidade, como querem exercê-la. Têm disponibilidade. Haverá abertura para tal?"