A Comissão de Atletas Olímpicos (CAO) apresentou hoje o estudo "Transição de carreira, situação perante o emprego e mercado de trabalho", realizado em parceria com a Escola Superior de Desporto de Rio Maior (ESDRM).
O Presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), Artur Lopes, destacou a importância da união de forças para que as conclusões do estudo possam ser efetivamente postas em prática. “O que se pretende é saber como vamos fazer uma junção das duas vidas que devem estar perfeitamente ligadas e para isso toda a sociedade tem de participar. Não podem ser só os atletas, só os treinadores, só os dirigentes, só os governantes ou a sociedade civil. Têm de ser todos e de forma junta, aumentada, para que o atleta não dê como perdidos os anos em que lutaram pelo desporto e pelo pais”.
Já Diana Gomes, Presidente da CAO, relembrou que estas são “matérias até hoje nunca estudadas” e avaliou o estudo como “relativamente positivo mas demonstra que ainda há muito caminho a percorrer. Por conhecermos [na CAO] tão bem esta matéria temos vindo a colocar tanto ênfase na transição de carreira e apostamos no desenvolvimento de dinâmicas de aproximação aos atletas de forma a conhecer de forma mais aprofundada cada um deles”.
Pedro Dias, Secretário de Estado do Desporto, partilhou a satisfação pela realização do estudo, considerando-o “uma ferramenta relevante para compreendermos as dificuldades, os desafios, as oportunidades que os atletas enfrentam quando terminam as carreiras desportivas e passam ao plano profissional”, e apresentou algumas das suas ideias para o setor, incluindo os clubes e as federações desportivas para que “quando tudo estiver ligado não seja possível que atletas de alto rendimento e que estejam na preparação olímpica não tenham condições para ter uma carreira dual”.
Estudo deixa pistas para reflexão sobre gestão da carreira desportiva e profissional
Abel Santos, professor da ESDRM e coordenador do grupo de trabalho, apresentou as principais conclusões do estudo que identifica, descreve e caracteriza os percursos realizados pelos atletas para a entrada no mercado de trabalho e a sua situação perante o emprego. O estudo foi realizado junto de atletas participantes no Programa de Preparação Olímpica e/ou nos Jogos Olímpicos Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020, tendo terminado as suas carreiras desportivas nestes ciclos olímpicos, ou seja entre 2008 e 2021. A população identificada é de 146 atletas, representantes de 19 modalidades, sendo que 51,4% dos atletas responderam de forma válida ao inquérito da primeira fase do estudo. Na segunda fase foram criados grupos focais, de forma a aprofundar relações de causalidade e conhecimento sobre o percurso e a situação dos atletas, que integraram 41 atletas. A amostra dos atletas que efetivamente participaram no estudo é composta em 68,3% por indivíduos do sexo masculino e 37,7% do sexo feminino, com uma média de 34,9 anos, sendo a maioria casada ou tendo um parceiro permanente. A Natação (21,3%), o Atletismo (18,7%), o Judo (10,7%), a Vela (10,7%) e a Canoagem (9,3%) foram as modalidades com maior número de atletas em término de carreira.
No que diz respeito às respostas dos atletas no segmento “Vida e sucesso no desporto de elite”, mais de 80% revelou estar “satisfeito/a” ou “muito satisfeito/a” com o sucesso alcançado, embora apenas 21,3% se considere “bem conhecido/a” ou “muito conhecido/a” para a população nacional. A nível financeiro 59,67% dos atletas assumiu o rendimento do contexto desportivo como a sua maior fonte de rendimento anual, sendo que no auge da sua carreira os rendimentos variavam entre os 1001-1500 euros para 26,7% e entre 1501-2000 euros para a mesma percentagem. No entanto apenas 17,3% dos atletas se dedicaram de forma exclusiva à carreira desportiva, sendo que os restantes conciliavam com estudo e/ou trabalho.
No segmento “Término de carreira desportiva e período transitório”, 48% das respostas revelam que os atletas começaram a preparar o fim de carreira desportiva um a cinco anos antes de efetivamente acontecer, e que uma percentagem significativa começou efetivamente a trabalhar enquanto mantinha uma carreira desportiva, embora 29,3% não tenha feito qualquer ação de preparação da transição de carreira.
Sobre “A vida após o desporto de elite”, 92,4% revela estar atualmente a exercer uma atividade profissional, dos quais 70,5% trabalham por conta de outrem e a maioria com contrato efetivo. 24,6% dos atletas empregados estão no setor de atividades artísticas, de espetáculos, desportivas e recreativas, com os cargos mais referidos a serem treinador (17,8%), gestor (14,4%) e diretor (9,6%).
Entre as recomendações finais do estudo destacam-se: constituição de Unidade de Apoio à Empregabilidade para Atletas Olímpicos; aplicação correta do estatuto de estudante-atleta e aprofundamento das Unidades de Apoio ao Alto Rendimento na Escola; melhoramento dos processos de formação de treinadores e de divulgação das ofertas de emprego público; constituição de oferta formativa de micro-credenciais para validação das competências obtidas no alto rendimento; procedimentos de adesão à Segurança Social para atletas que integram o Programa de Preparação Olímpica; criação de planos individuais de carreira desportiva.
A equipa de estudo da ESDRM foi coordenada pelo professor Abel Santos e constituída por Alfredo Silva, Carla Borrego, Félix Romero e Pedro Sobreiro. Pode consultar aqui o relatório do estudo e o sumário executivo .
Mesa-redonda juntou atletas olímpicos

O evento de apresentação das conclusões do estudo contou ainda com uma mesa-redonda que contou com os atletas olímpicos Telma Monteiro, José Costa e Rui Silva e moderação de João Neto, que felicitou a possibilidade que o estudo oferece para que se olhe para a transição de carreira de forma sustentada e não empírica. Rui Silva, que integra o Departamento de Alto Rendimento da Federação Portuguesa de Atletismo, confessou que teve uma transição difícil, porque “nunca tive o discernimento de quando ia terminar a carreira”. Por isso considera ser importante “dar apoio e termos a quem recorrer, porque é reconfortante existir um apoio especializado para a transição de carreira”.
Telma Monteiro, que atualmente exerce funções de coordenação do Judo no Sport Lisboa e Benfica, nota uma mudança de paradigma. “Os programas que têm sido desenvolvidos para o pós-carreira têm contribuído para que haja uma maior facilidade de integração. Eu sempre tive uma perspetiva do que queria fazer depois, procurei esse auto conhecimento e tentei conciliar ao máximo os estudos com a carreira de alto rendimento”.
José Costa, que trabalha como treinador de Vela fora de Portugal, entende que o “estudo corrobora a minha experiência, mas fiquei surpreendido por uma parte da amostra terminar a carreira com pouco planeamento. Somos detentores de algumas capacidades, representamos o nosso país e quando passamos à vida civil sermos apenas mais um causa do ponto de vista emocional e psicológico algum stress”.