A história começa há cerca de 15 anos. Um jovem treinador, recém-formado, obtém as primeiras medalhas internacionais na Patinagem de Velocidade. Ávido de saber mais, de analisar, de observar, de estudar, de aprender, percebe que muitos dos adversários diretos dos seus patinadores sobre rodas se treinam durante o inverno na vertente de gelo, obtendo ganhos positivos em termos técnicos e fisiológicos. Para além disso, a Patinagem de Velocidade no Gelo tem o encanto de alimentar o sonho Olímpico e Alípio Silva também sente esse chamamento.
Só cerca de 10 anos depois, em 2021 e em conjunto com a Federação de Desportos de Inverno de Portugal e a Câmara Municipal da Calheta, foi possível ao treinador madeirense reunir um grupo de patinadores de rodas e rumar aos Países Baixos para um estágio no gelo. Os resultados foram animadores. “Levei 12 patinadores treinados por mim, onde se incluía a Jéssica Rodrigues com apenas 15 anos. Com apenas 14 dias de gelo, quatro desses patinadores conseguiram qualificação para as Taças do Mundo de Juniores nessa época, incluindo a Jéssica”.
Alípio Silva, treinador de Patinagem, está à beira de conseguir um feito histórico – confirmar a qualificação da primeira mulher portuguesa a competir em Patinagem de Velocidade no Gelo nos Jogos Olímpicos. No entanto tem já um largo palmarés de resultados tanto em rodas como em gelo, uma vez que o título mundial júnior de Jéssica Rodrigues em 2025, na prova de mass start, tem a sua intervenção direta. Por estes dias, acompanha o estágio da jovem patinadora portuguesa em Salt Lake City, nos Estados Unidos da América, a que se seguirá a competição entre sexta-feira e sábado, com o objetivo de atingir o tempo de qualificação olímpica para assegurar a presença nos Jogos Olímpicos de inverno Milão-Cortina 2026, já no próximo mês de fevereiro. “A pista e o local têm realmente condições únicas para que a Jéssica tente atingir o tempo de qualificação olímpica”, admite o treinador. Apesar da pressão do momento, Alípio Silva espera que a sua atleta “consiga ser ela própria, uma guerreira que em competição se transcende e é capaz de fazer coisas extraordinárias”.

A primeira oportunidade para atingir o tempo de qualificação olímpica é na sexta-feira, dia em que estão agendadas as distâncias de 500 e 1500 metros, procurando-se os tempos de 39,50 segundos e 1.59,50, respetivamente. O dia seguinte está reservado para os 1000 metros (1.18,00) e 3000 metros (4.12,00). Conseguindo um dos tempos exigidos internacionalmente, Jéssica Rodrigues estará a competir nos Jogos Olímpicos na prova de mass start, em que todas as patinadoras partem em simultâneo para discutir os resultados.
Estar nos Jogos Olímpico de inverno seria para Alípio Silva uma “grande satisfação e orgulho” que daria “um olhar positivo para o futuro”. A presença de uma dupla atleta-treinador da Madeira até poderia trazer alguma admiração mas acima de tudo seria um “sentimento de emoção tremenda e de dever cumprido, baseado num trabalho com muita superação e resiliência”. Chegando a Itália, o treinador desejaria que a atleta pudesse “viver esse momento e mais uma vez voltar a ser ela mesma em competição, uma atleta destemida e com uma imprevisibilidade na atitude muito alta, pelo que pode surpreender”. A presença da portuguesa nos Jogos Olímpicos de inverno Milão-Cortina 2026 seria encarado também como um momento para “aprender e perceber onde podemos evoluir para sermos cada vez mais competitivos”.
Antes da presença olímpica, faltará o último passo, a obtenção do tempo de qualificação exigido, uma vez que o lugar de ranking foi conseguido após a participação nas quatro Taças do Mundo seniores, no final de 2025.
O treinador deixa um conselho a Jéssica Rodrigues antes de iniciar a decisiva prova em Salt Lake City: “Ser ela própria e fazer o que sabe fazer, sem medos e sem sentir que se falhar as pessoas vão ficar desiludidas com ela. Afinal de contas, a Jéssica só está numa situação como esta porque já conseguiu algo extraordinário”.