A igualdade de género foi o tema dominante do Seminário Internacional Desenvolvimento de Competências de Liderança no Desporto organizado esta quinta-feira pela Comissão Mulheres e Desporto do Comité Olímpico de Portugal (COP).

Na abertura do seminário, José Manuel Araújo, secretário-geral do COP, sublinhou a importância da legislação que está em discussão de novo para subir de 33% para 40% a quota de ocupação de órgãos da Administração Pública pelo género feminino. “Vai ser mais um passo positivo na perceção do que deve ser feito.”

Convidado para a sessão de abertura do seminário, o secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo, não pôde estar presente, mas enviou uma mensagem, lida por Mónica Jorge, da Comissão de Mulheres e Desporto do COP. “Devemos contribuir para alterar este paradigma” – ainda marcado pela desigualdade -, desejou João Paulo Rebelo, que sublinhou a necessidade de “incutir uma atitude não discriminatória nos jovens.”

Elisabete Jacinto, presidente da Comissão Mulheres e Desporto do COP, lançou os trabalhos com um desafio: “Queremos contribuir para diminuir as assimetrias existentes. A União Europeia determinou que um mínimo de 40% dos órgãos dirigentes devem ser ocupados por mulheres. Estamos francamente longe das metas estabelecidas”, disse, referindo-se ao facto de em Portugal essa percentagem ser de 12,5.

 

“Que educação para a igualdade de género?”

Paula Silva, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, proferiu a primeira conferência da tarde, intitulada “Que educação para a igualdade de género?”

“A educação para a igualdade é um processo de questionamento contínuo – por que o fazemos?”, perguntou, explicando depois que “a desigualdade não acontece por acaso. As discriminações são despercebidas, mas marcam, estão enraizadas, determinam pensamento e ações.”

A investigadora da Universidade do Porto refletiu sobre o lugar do corpo nesta problemática, defendendo que este “inscreve mensagens de dominação”, porque dos “corpos de mulher esperam-se que sejam frágeis, os dos homens musculados”, o que vem a refletir-se no desporto: “As expectativas sociais pressionam as raparigas a escolher determinadas modalidades.”

“Será que continua a ser importante analisar as questões das mulheres no desporto?”, voltou a questionar, respondendo afirmativamente, por muito haver ainda a mudar, o que passa pela aprendizagem. “É preciso desenvolver competências em matéria de igualdade: comunicação, cooperação e análise crítica. É preciso utilizar linguagem inclusiva, encontrar expressões alternativas não sexuadas.” Mais: não utilizar “termos que excluem.”

Paula Silva deixou, a finalizar, mais uma nota para reflexão no que diz respeito ao desporto: “A norma é que o masculino é excelente e as mulheres não se adequam, e as que se adequam são maria-rapaz, já não são bem mulher.”

Seguiu-se a mesa redonda sobre “A diferença de género na gestão da liderança em meio desportivo”, moderada por Maria José Carvalho, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto: “A participação das mulheres em cargos dirigentes no desporto assemelha-se à Idade da Pedra”, disse a abrir. “É concebível que haja federações desportivas que não têm uma única mulher nos corpos sociais? Como é que podemos falar em igualdade de género?”. E acrescentou: “Ao fim de 20 anos, o interessante é passar para a ação, apresentar medidas, ações, programas. Esta matéria não tem sido uma prioridade da agenda política”, criticou.

Francisco Neto, selecionador nacional de Futebol Feminino, defendeu que não é o género a impor a competência e referiu que a ocupação de cargos é “uma questão de oportunidade”, dando o seu exemplo de líder de mulheres e liderado por uma mulher, à vez, seja selecionador principal ou adjunto na equipa de Sub-17.

“Há mulheres na liderança, mas sempre na subliderança”, apontou Margarida Gaspar de Matos, da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa. “Eu gosto de pensar que vivo num mundo igual, de igualdade de oportunidades, mas, por muito antipática que seja a ideia das quotas, provavelmente teremos de as ter durante um tempo.”

Paula Silva acrescentou ainda: “As coisas mudam quando as pessoas atuam, o tempo não as muda. O problema não está em legislar, mas em fazer cumprir a legislação.”

 

“3 Keys to success in Sustainability Leadership: Courage-Endurance- Strategy”

Na segunda conferência do dia, “3 Keys to success in Sustainability Leadership: Courage-Endurance- Strategy”, Kristiina Pekkola, psicóloga e presidente da Federação Sueca de Judo, esclareceu as condições particulares em que chegou ao cargo que ocupa atualmente, num caminho marcado pela discriminação dos seus pares. “Percebi que não tínhamos atingido os objetivos ao fim de três anos e decidi fazer uma proposta, tinha um plano para conseguir medalhas nos Jogos Olímpicos.”

No dia da apresentação, na reunião estiveram seis homens. “Eu era a única mulher e quando quis falar, o então presidente perguntou: ‘Plano, qual plano? Essa é a pior ideia que já vi’.”

Passaram dez anos e entretanto Kristiina Pekkola chegou a presidente da Federação Sueca de Judo. “Tivemos de definir objetivos” – um dos quais era o de fazer subir o número de praticantes de 14 mil para 20 mil até 2020. “Iniciámos em 2013 um programa de liderança para jovens entre 18 e 25 anos, e um programa para treinadoras em 2016. As publicações, seja em que suporte for, são iguais, envolvendo o mesmo número de imagens de homens e mulheres.”

Mas houve mais. “Acabámos com as comissões, julgámos que iria ser um problema, mas as pessoas acharam boa ideia, porque tinham poder em termos negativos. Abandonámos uma estrutura clássica para ter uma organização flexível e orientada para projetos com objetivos definidos, com igualdade de género obrigatória.”

Em 2017, já havia 20.689 praticantes de judo na Suécia, há agora 194 clubes em ação, faltando seis para os 200 a que Kristiina Pekkola se propôs até 2020. “Mas ainda temos dois anos”, lembrou. Só as medalhas olímpicas estão a zero e em Tóquio o objetivo são duas.

Na Federação, diz, orgulhosa, “somos 7 mulheres e 7 homens na equipa.”

Seguiu-se a mesa redonda “Desenvolvimento de competência de liderança em futuros líderes”. Dina Pedro, selecionadora nacional de Muaythai, falou da sua experiência: Tive de mostrar as minhas competências. Eu arrisquei, quis pagar o meu risco”, disse. “Temos de tirar o estigma das mulheres que desistem. Se cada uma acreditar que pode mudar um bocadinho, a coisa muda mesmo. E nunca tivemos os resultados que estamos a ter.”

O antigo secretário de Estado da Juventude e Desporto, Laurentino Dias, reforçou que “todos beneficiamos de uma presença equilibrada de homens e mulheres nas organizações. Mas não é só no desporto, é também noutras áreas. É preciso dar passos no sentido desse equilíbrio. Não sou adepto de quotas, mas essa é uma forma eficaz de estimular a presença das mulheres.”

João Rodrigues, presidente da Comissão de Atletas Olímpicos, partilhou experiências de carreira, e o moderador, Sidónio Serpa, psicólogo, docente da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, desafiado a dar uma opinião sobre liderança, disse que depende das “pessoas, da capacidade que têm de se adaptar aos outros, e isso vem da experiência, e da capacidade de criar autonomia.”

Catarina Rodrigues, da Comissão Mulheres e Desporto do COP encerrou o seminário. “Queríamos fazer um alerta para as dificuldades que as mulheres ainda hoje enfrentam para desempenhar cargos dirigentes. Sabemos que temos um longo caminho a percorrer. E necessitamos de ter homens pioneiros, líderes sem medo de escolher”, concluindo que “é urgente trazer a agenda 2020 para a agenda diária.”

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