A Comissão Mulheres e Desporto do Comité Olímpico de Portugal (CMD-COP) organizou esta quarta-feira o webinar “Políticas Europeias para a Igualdade de Género”, com o objetivo de mobilizar as atenções para uma temática que deve ser “uma prioridade”.

Elisabete Jacinto, presidente da CMD-COP, sublinhou que esta realização visa também contribuir para o “aumento da participação feminina no desporto.”

A atleta olímpica Filipa Cavalleri, da CMD-COP, moderou o webinar, que teve como primeira participante Teresa Fragoso, presidente da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG).

“O desporto é uma esfera fundamental para compreender a realidade vivida por mulheres e homens. O trabalho que fazemos para a Igualdade deve ser transversal a todas as áreas”, defendeu Teresa Fragoso.

A presidente da CIG sublinhou na sua intervenção que “uma coisa é a lei, outra é a vivência prática. As mulheres não têm historicamente o mesmo valor social dos homens. Têm sido vistas como inferiores.” E reforçou: “Todas as esferas refletem esta assimetria entre homens e mulheres. E o desporto não é exceção. O que está na base da discriminação são estereótipos de género.”

Em relação ao caso específico do desporto, Teresa Fragoso lembrou existir “uma assimetria nos salários, patrocínios e prémios. A assimetria no que se paga é dizer às mulheres que valem menos. Há um caminho longo a percorrer.”

“O primeiro passo” para caminhar no sentido da igualdade de género “é sensibilizar, informar. O desporto é sem dúvida uma área que deve dar um exemplo de igualdade”, concluiu a presidente da CIG.

“Uma questão que diz também respeito aos homens”

Sarah Keane, presidente da Comissão de Igualdade de Género dos Comités Olímpicos Europeus, fez a caracterização da situação da Igualdade de Género a nível europeu.

Primeira mulher presidente do Comité Olímpico da Irlanda, Sarah Keane esclareceu que ao assumir funções “sempre quis trabalhar pela igualdade de género no desporto”, defendendo ser “importante lembrar que esta é uma questão que também diz respeito aos homens.”

A dirigente irlandesa introduziu no webinar o tema da violência exercida sobre as mulheres, lançando um desafio: “Temos de manter as mulheres seguras e não é fácil que isso aconteça em todos os países.” Num estudo efetuado na Bélgica e na Holanda, 38% das mulheres inquiridas relatam experiências de violência psicológica, 11% de violência física e 14% de violência sexual, o que levou Sarah Keane a tirar uma conclusão: “Nesta área, precisamos de ter uma política específica, é preciso haver pessoas dedicadas a esta questão, profissionalmente.”

A desigualdade na composição das missões olímpicas, com maior peso de homens, no que se refere a atletas e treinadores, foi também tema na apresentação da presidente da Comissão de Igualdade de Género dos Comités Olímpicos Europeus. “Temos de fazer alguma coisa em relação a isto.” E exemplificou: “Na área dos treinadores tem-se feito pouco pela igualdade. No Rio 2016, na Missão de Portugal, 27 treinadores eram homens e dois eram mulheres.”

Sarah Keane acentuou a necessidade da governação das organizações ser alterada, tendo referido uma necessidade essencial: “Precisamos de mulheres que se candidatem.”

Na Irlanda, as federações aprovaram uma moção que obriga a Comissão Executiva do Comité Olímpico a ser preenchida com uma quota de pelo menos 40% de mulheres. “As federações aprovaram, agora esperamos que também concretizem essa medida na sua própria organização”, disse Sarah Keane.

“Nós podemos fazer muito em relação à Igualdade de Género. Criem uma agenda, falem no assunto, e façam tudo para que as metas da organização incluam esta preocupação. Não fiquem paralisados. Há um movimento no mundo pela igualdade de género como nunca houve antes”, sublinhou a presidente da Comissão de Igualdade de Género dos Comités Olímpicos Europeus.

Marisa Fernandez, adjunta do Chefe da Unidade de Desporto da Comissão Europeia, abordou os Programas e Políticas de Igualdade de Género definidos pela Comissão Europeia, destacando a importância da Semana Europeia do Desporto no contexto da pandemia e a importância dos prémios europeus “Beinclusive”: “A igualdade de género é um dos critérios para encontrar o vencedor.”

A adjunta do Chefe da Unidade de Desporto da Comissão Europeia sublinhou o facto da liderança no desporto “ter uma evidente falta de mulheres em lugares de liderança. Só 7% das federações são presididas por mulheres. Elas trazem uma atitude e perspetiva diferentes, e as organizações só têm a ganhar com isso”, defendeu.

Marisa Fernandez explicitou ainda vários projetos europeus integrados no programa Erasmus+, como o “All in” e o “She Runs”, que promovem competências de liderança entre as mulheres.

No período de debate, Elisabete Jacinto colocou uma questão sobre a ideia de algumas das mulheres que chegam a lugares de topo, em Portugal, e referem não sentir qualquer discriminação quanto à igualdade de género e de oportunidades. Teresa Fragoso respondeu: “O mais normal é que as pessoas não se sintam discriminadas. As mulheres, estatisticamente, ganham menos do que os homens e não se manifestam. Esta é uma questão que precisa de momentos como este, de consciencialização.”

Ana Celeste Carvalho, da CMD-COP, encerrou o webinar. “Não podíamos deixar de colocar este tema na agenda desportiva, em Portugal, é um tema que está na agenda mundial. Ao fazê-lo visamos a três objetivos: informar, consciencializar e informar todos os participantes que podem ter um papel ativo. É uma causa que temos de colocar também na agenda política.”

A membro da CMD-COP encerrou o webinar citando Nelson Mandela. “Escreveu o livro ‘Um caminho para a liberdade’, esperemos neste caso que não seja longo, que seja para a igualdade de género.”

 

 

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