A 26 de agosto, o jornal A BOLA editava uma primeira página com o título “Desporto em risco de colapso”. No interior da edição havia uma série de depoimentos de responsáveis de organizações desportivas sobre as dificuldades por que estavam a passar. Nesse dia, os principais meios de comunicação social, escritos e audiovisuais, multiplicaram o noticiário a partir desse tópico.

O resultado imediato foi o de passar a haver um antes e um depois de 26 de agosto. Nos últimos anos, raras vezes uma primeira página de um jornal desportivo terá tido um tão grande impacto político como naquele dia. É a partir dele que o problema premente da retoma das atividades desportivas não pode mais ser iludida, adiada ou contornada, com declarações inócuas ou de circunstância. Sucedem-se os contactos e as justificações. Avançam-se explicações e interpretações sobre o sentido das orientações das autoridades de saúde. Interpretam-se os tempos verbais. Constrói-se uma estratégia e formula-se uma narrativa, basicamente comunicacional, para demonstrar que, contrariamente ao alarme que a primeira página do jornal pressagiava, tudo, afinal, estava de acordo com o previsto. Elencaram-se os progressos já verificados.

O que parecem, à superfície, justificações plausíveis – a pouco e pouco estamos a recuperar o que havíamos perdido de atividade desportiva e houve um esforço inicial para libertar algumas atividades de treino e preparação – são afinal a manifestação de algo mais profundo – a negação da realidade, através da escolha de apenas uma das suas partes: a retoma da atividade desportiva.

Este estado de negação ou minimização do problema não augura nada de bom quanto ao futuro. Um futuro que requer lucidez na avaliação da situação, rigor nos dados e clareza nas políticas.

O desporto nacional, a todos os seus níveis e escalões, sofreu fortes impactos com a paralisação a que foi sujeito, como não poderia deixar de ser em qualquer sector que se vê privado da sua principal fonte de sustentabilidade e criação de valor. No caso, a organização de competições e atividades desportivas. Como sucedeu na generalidade das atividades económicas e sociais do País, no desporto houve secções desportivas encerradas, atividades paradas, ordenados em atraso, receitas em queda, calendários que se não cumpriram, patrocínios que se perderam, competências que não se exerceram e um futuro de incertezas. E parte da retoma já autorizada não permite, naturalmente, recuperar da paragem a que foi forçado. E isto é válido tanto para a dimensão profissional, como para a não profissional.

A situação nacional aconselha um reconhecimento categórico e inequívoco das dificuldades do momento pouco compatível com uma atitude de minimização do problema. E recomenda um reforço dos mecanismos de cooperação entre Governo e as organizações desportivas no sentido de consolidar laços de confiança indispensáveis para poder enfrentar uma situação que é difícil e complexa.

Ao Governo cabe escolher os riscos – por motivos distintos eles existirão sempre com atividades paralisadas ou retomadas -, mas nessa escolha só retirará benefícios se considerar que é tão importante a decisão estar tecnicamente fundamentada no domínio da segurança sanitária, como no domínio da segurança desportiva. E que uns e outros têm de dialogar num plano de igualdade em que os saberes técnicos possam ajudar à construção da decisão política.

Mas não andarão bem as autoridades públicas se colocarem o acento tónico apenas na retoma da situação desportiva com mais ou menos limitações sanitárias. Ou se fizerem depender em exclusivo as políticas públicas para o desporto em tempo de crise do modo como as autoridades de saúde pública vão avaliando a evolução da situação epidemiológica, ela própria uma incerteza. Será um erro.

A situação requer outro tipo de medidas, designadamente no minimizar dos efeitos económicos e sociais da paralisação a que a generalidade das atividades foi sujeita. Como o ilustram um conjunto significativo de países europeus que rapidamente construíram respostas políticas para a situação.

Neste contexto, as palavras do Presidente da Confederação dos Treinadores de Portugal que, invocando autorização governamental, anunciou para outubro a retoma para os escalões de formação das atividades de treino e competição desportiva, nas modalidades onde ainda estão suspensas, foi uma notícia que fez baixar a pressão. Não mais do que isso. Falta o resto. Que é, ainda, muito.

José Manuel Constantino
Presidente do Comité Olímpico de Portugal

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