Terminou esta quinta-feira com Humor e Banda Desenhada no centro das atenções o ciclo de webinares Abrir a Caixa, do Comité Olímpico de Portugal e da Comissão de Atletas Olímpicos (CAO), depois de levar a debate, ao longo de todo o mês de outubro, temas tão variados como a comunicação através das redes sociais, a moda e o desporto, imagem e fotografia nos Jogos Olímpicos e o eTreino.

Protagonistas da sessão foram o cartoonista Luís Afonso, autor das tiras Bartoon, no jornal Público, e de Barba e Cabelo, n’A Bola, e o atleta olímpico de Vela, participante nos Jogos Olímpicos Rio 2016, José Costa, moderados por Ricardo Bendito, coordenador do Gabinete do Atleta, da CAO.

Luís Afonso abriu a conversa com uma crítica severa e particular. “O humor no desporto está quase no nível zero. A nível do futebol as pessoas não têm capacidade de encaixe, é quase impossível fazer uma crítica sem ficarem ofendidas. É um absurdo”, considerou quem tem no futebol um dos principais objetos da sua atividade e defende haver na modalidade um vírus que “infeta” e para o qual “não há antibiótico. Conheço menos as outras modalidades, mas dá-me ideia que têm um ambiente menos crispado, com pessoas mais positivas.”

José Costa concordou com esta visão. “Tenho pessoas muito próximas que têm esse vírus, dizem muitas vezes que sentem mais as vitórias e derrotas do clube do que da equipa nacional. Isso, para mim, é um atentado. Como é que alguém consegue pôr a nação onde nasceu atrás de um clube, que é de um bairro ou de uma cidade. As pessoas perdem a noção da realidade, ultrapassam todos os limites.”

Com uma carreira de mais de 30 anos na comunicação social, Luís Afonso fez um esclarecimento fundamental. “Há uma coisa que é preciso distinguir: o cartoon e o humor podem não ser a mesma coisa. Há cartoons que não têm humor.” E há uma caraterística que lhe é inalienável: “O cartoon deve ter a capacidade de pôr as pessoas a refletir” e a técnica para o criar passa por “desconstruir as situações e mostrar o seu lado mais absurdo, chamando a atenção de casos concretos que não estejam bem.”

Luís Afonso explicou que “as tiras diárias são feitas como cinema de animação ou teatro de marionetas.” No caso da Barba e Cabelo, só este é cortado, nunca a barba, “para não tirar a expressão da boca” ao cliente sentado na cadeira do barbeiro.

Para José Costa, há uma linha intrigante no trabalho de Luís Afonso. “Aquilo que mais me intriga é o conhecimento geral que é preciso ter para fazer uma piada. O cartoon tem sempre uma notícia associada e é preciso ter uma ginástica mental sobre uma diversidade de assuntos muito grande.”

Luís Afonso revelou à audiência do webinar um número impressionante. “Eu fiz para aí 30 mil tiras, até tenho medo de me repetir. Tem de haver um trabalho de pesquisa muito grande. Passo o tempo a ler coisas.” O seu campo de ação é alargado, mas não passa pelo recurso às redes sociais. “Se as tivesse não teria tempo para mais nada. Por um lado é mau, porque não tenho acesso a certas notícias, mas também há o lado positivo, porque há muita informação falsa que não me chega.”

Do trabalho de Luís Afonso consta também “a prática de ‘checkar’” a informação. “Vejo qual é a fonte e às vezes não avanço. Já me livrei de boas. Até agora tenho-me safado, mas há conta de muito tempo” dispendido a trabalhar a sua principal matéria-prima: as notícias.

A viver no Alentejo, em Serpa, o cartoonista há muito trabalha à distância. “Quando se começou a falar no teletrabalho, há 30 anos, eu era sempre um dos exemplos apontados.” Luís Afonso identificou depois um problema cíclico: “O País está recetivo a outras notícias nos Jogos Olímpicos”, mas “o pessoal passa quatro anos que não liga ‘peva’ aos atletas e depois quer medalhas.”

Apesar desta realidade, José Costa identifica nos atletas olímpicos uma caraterística comum: “Qualquer um de nós tem capacidade de rir. Passamos por momentos de esquecimento e depois temos de rir.” O velejador entende o trabalho de Luís Afonso como amigável. “O cartoon normalmente não é depreciativo para o atleta e é muito bem entendido. Nós conseguimos rir-nos de nós próprios. Temos uma grande capacidade de autoavaliação.”

E Luís Afonso condescende: “Os cartoons do futebol normalmente são para deitar abaixo, sobre os figurões. Nos Jogos Olímpicos, quando faço as coisas aquilo é uma brincadeira. É um exercício engraçado fazer as coisas pela positiva.”

Tintin, Lucky Luke e Astérix, “sobretudo quando era escrito pelo Goscinny”, são as referências de Luís Afonso na banda desenhada. “No cartoon, a Mafalda e Peanuts.”

José Costa confessa “ler muito, mas não banda desenhada. Gostava muito de Lucky Luke, mais rápido do que a própria sombra.” E a finalizar deixou um desafio: “Ser alvo de um cartoon do Luís Afonso seria muito bom.”

Luís Afonso não se ficou: “Vou ficar com o José Costa debaixo de olho.”

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