Os tempos que vivemos correm a um ritmo que muitas vezes dificultam a reflexão e a construção de um pensamento crítico sobre as realidades com que nos confrontamos, marcado por uma acentuada instabilidade, tensões e impasses que agudizam o imediatismo e a superficialidade das análises.

A ciência, a construção do saber e o conhecimento são os melhores antídotos para combater o desgaste da ausência de um confronto argumentativo, tendo nesse propósito as Universidades e as respetivas comunidades académica e científica um papel insubstituível e uma responsabilidade ineludível.

O conceito de desporto adquiriu nos tempos presentes uma carga semântica muito mais ampla do que aquela que constava da sua matriz original, em cuja evolução cabem dimensões diametralmente opostas e contraditórias, o que nos lança para uma indefinição e ausência de um quadro de referência sobre o conceito e a identidade do desporto, à qual não se pode imputar apenas os efeitos do tempo e da historicidade na sua construção.

O certo é que esta erosão do conceito de desporto a que assistimos tem consequências que em muito se projetam para além de uma simples disputa ou imprecisão terminológicas circunscritas a círculos restritos, pois é neste contexto, onde a adjetivação desportiva se gruda a todo o tipo de atividades, que o debate contemporâneo se processa e é percebido pela opinião pública, e em torno do qual se caucionam tomadas de decisão em políticas públicas e associativas.

No âmbito do sistema desportivo assistimos nos últimos anos à tentativa de classificar os chamados jogos eletrónicos (na versão anglófona  eGames ou eSports) como desporto e nesse caso até como modalidade/especialidade a poder integrar o programa dos Jogos Olímpicos.

Esta discussão tem estado circunscrita a operadores comerciais, especialistas técnicos e juristas, arrastando os decisores políticos por força do impacto comercial e financeiro de um fenómeno que naturalmente requer regulação. Resta saber se é uma regulação dentro ou fora do sistema desportivo.

Os titulares do conhecimento nas áreas das Ciências do Desporto não podem ficar fora desta discussão até porque foi com base no conhecimento aí produzido que se chegou à atual definição de desporto, que consta da Carta Europeia do Desporto.

Uma matéria como a de saber o se os jogos eletrónicos podem ou não ser classificados como Desporto carece de um prévio consenso da comunidade académica e científica da área das Ciências do Desporto, que é a que está mais habilitada a pronunciar-se sobre a matéria, antes de outros corpos sociais ou profissionais o fazerem.

Daí que o Comité Olímpico de Portugal tenha apelado, junto das Universidades e instituições do Ensino Superior com formação na área das Ciências do Desporto, para que estimulem a reflexão sobre o tema e permitam à sociedade portuguesa ter argumentos de base científica para enfrentar esta nova realidade.

JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
Presidente do Comité Olímpico de Portugal

 

 

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