Retirado do n.º 144 da Revista Olimpo

 

No Rio de Janeiro irá ter a oportunidade de voltar aos Jogos, depois de ter feito parte da seleção olímpica de futebol de Portugal que foi 4ª classificada em Atlanta em 1996. Será a hipótese de acabar com o sabor amargo que foi ficar à beira das medalhas. Mas para Rui Jorge, selecionador olímpico de futebol, ainda é muito cedo para traçar objetivos. Primeiro está a fase de apuramento do Europeu Sub-21. Assim como saber quem serão os adversários que terá pela frente. Mas certo é que a ambição é a palavra-chave e que se houver essa oportunidade, a formação das quinas irá querer viver o espírito olímpico, algo que para sua grande deceção não teve oportunidade de viver enquanto jogador nos EUA.

 

 

Olimpo – Assumiu o apuramento olímpico como principal objetivo no último Europeu Sub-21. Alcançada essa meta, o que pretende alcançar no Rio 2016?

Rui Jorge – Ainda não temos um objetivo traçado. Ainda estamos a uma distância considerável, sem que nos tenhamos debruçado a sério sobre isso. Há um longo caminho onde saberemos quem são os adversários, pois neste momento nem essa questão está ainda fechada.

Estar nos Jogos, por si só, é um motivo de orgulho e representa o alcançar de um objetivo, mas é fundamental saber quem teremos pela frente, que jogadores irão levar ao Rio. Vamos desfrutar o momento e tentar ser o mais competentes possível. Se o conseguirmos, os resultados vão aparecer.

 

Esta equipa poderá juntar duas equipas muito talentosas, os vice-campeões europeus de Sub-21 e a equipa que chegou aos quartos do Mundial Sub-20. Poderá ser a mais forte equipa de futebol que Portugal apresentou numa edição de uns Jogos Olímpicos?

 

A de 1996 não será fácil de bater, tinha excelentes jogadores… Estou a brincar [risos]. Mas o quarto lugar que conseguimos nuns Jogos Olímpicos não é fácil. Vamos ter pela frente, com toda a certeza, equipas muito fortes. E tradicionalmente as equipas europeias nos Jogos não conseguem grandes resultados, como a estatística facilmente o comprova [nota: a última medalha de uma seleção masculina de futebol europeia nos Jogos Olímpicos foi em 2004, a Itália, e a última de ouro, da Espanha em Barcelona 1992].

Certo é que teremos adversários fortes e para alcançar aquele resultado que as pessoas mais desejam temos um passo muito grande para dar.

 

Como jogador ficou à beira do pódio, foi um sabor muito amargo que pretende superar no Rio?

 

Foi um sabor muito amargo, pois é o pior resultado que se pode alcançar depois de chegar às meias-finais. Mas isso não invalida que foi excelente chegar a esta fase da prova. Porém, falando do Rio de Janeiro, insisto que é muito cedo para traçar objetivos.

 

Os Jogos Olímpicos disputam-se em ano de Europeu de Futebol. Da convocatória podem fazer parte jogadores que estejam nesta competição?

 

Essa é uma questão que ainda não está definida. Mesmo a nível interno, existe ainda muita coisa por definir. A esta distância, olhando para o calendário, não parece uma coisa simples de ser gerir em termos do esforço do jogador, no entanto, é algo no qual ainda não estamos a pensar detalhadamente sobre isso dado estarmos na fase de apuramento para o próximo europeu Sub-21.

 

Vários jogadores da seleção Sub-21 têm sido chamados à equipa principal. Isso é um motivo de orgulho ou uma preocupação pois são pedras-chave que perde no seu xadrez?

A seleção Sub-21 é um patamar ou uma alavanca, como lhe queiramos chamar, para chegarem à seleção principal. Somos um momento no seu trajeto, mas o nosso principal objetivo é conseguir colocar jogadores na seleção principal. Se isso acontece ficamos felizes, mesmo sabendo que daria jeito tê-los na nossa equipa sub-21.

 

 

Enquanto selecionador da equipa olímpica, um dos grandes desafios é a escolha de três atletas com mais de 23 anos. Que critérios terá para determinar esta escolha?

Para ser sincero é algo que ainda não pensei. Pode parecer estranho tendo em conta que muitas modalidades estão totalmente focadas nos Jogos Olímpicos nesta fase, mas a nossa realidade obriga-nos a ter outro foco, para já, que é mais uma qualificação para um Europeu. É óbvio que estamos em constante observação dos jogadores, entre eles os que estiveram connosco e já não podem fazer parte do grupo por questão do limite de idade, mas daí à preparação minuciosa que os meus colegas de outras modalidades já estão a fazer, ainda não é essa a nossa realidade.

Não debatemos esta questão internamente, mas apesar do regulamento permitir levar atletas com mais de 23 anos, isso não é obrigatório. E mesmo quem leva, por vezes as opções são muito distintas. Por exemplo, na equipa que integrei dos Jogos 96, a opção foi levar três jogadores com um ou dois anos a mais que o limite dos 23 anos. Mas o Brasil, pelo contrário, levou consagrados, como o Bebeto. Terei tempo de refletir sobre o tema. Tudo é possível, até levarmos consagrados, mas haverá uma série de fatores em equação no momento da decisão.

 

Já viveu por dentro uns Jogos Olímpicos, o que distingue esta competição de todas as outras?

Infelizmente para nós, a nível de futebol em 1996, por ser uma modalidade disputada em várias cidades, foi mais um torneio de futebol, onde o espírito olímpico que idealizamos desde crianças quando vemos os Jogos na televisão, como a cerimónia de abertura com o desfile das várias missões nacionais, passou-nos ao lado. Estávamos a quilómetros de distância do foco das atenções. Nesse aspeto foi uma deceção para mim, que espero que não se repita nestes Jogos. Espero que no Rio possamos ter oportunidade de viver o ambiente olímpico que eu e nós todos idealizamos.

 

Pensou um dia regressar como técnico?

Não, nunca. Enquanto jogador vivi a minha vida muito intensamente, sem pensar o que ia fazer após terminar a carreira. Propiciou-se a carreira de treinador, mas claro que a partir do momento em que sou treinador de uma equipa que disputa uma competição que podia dar a qualificação olímpica, claro que pensei e ambicionei regressar. Felizmente consegui-o.

 

 

Quais a principais memórias que guarda de Atlanta 1996?

O facto de estarmos afastados da festa que são os Jogos é uma dessas memórias. Nunca chegamos a ir a Atlanta, sequer. Estivemos em Washington e Miami. Lembro-me do grupo de jogadores que tínhamos, dos jogos que disputamos e em especial do jogo de atribuição do bronze que foi penoso para nós [derrota por 5-0 contra um Brasil que tinha entre outros, Ronaldo, Bebeto, Rivaldo, etc.].

 

 

Gostava de ficar no grupo do Rio de Janeiro de forma a poderem ficar na Aldeia e viver por dentro o espírito olímpico? Ou é preferível ficar afastado do frenesim que é a Aldeia?

Acredito que seja um frenesim mas mesmo assim, apesar de ser um local diferente, estou certo que é possível manter a concentração e profissionalismo que caracteriza o grupo. Idealmente, para quem sonhou estar nos Jogos, faz parte estar na Aldeia e estar ao lado de outros grandes atletas mundiais, referências das suas modalidades, mas isso é um pensamento de alguém que está de fora. Quando pensarmos de forma competitiva, depois de pesar e os contras, decidiremos, mas é uma questão que só se coloca consoante o sorteio.

 

O Mundial de Futebol 2014, que teve lugar no Brasil, não correu de feição para Portugal. Falou-se muito das difíceis condições climatéricas, isso poderá ser um fator importante? Há um favoritismo dos sul-americanos por esse motivo?

Claro que é um fator condicionante, seja pela temperatura, o fuso horários, isso tem que ser tido sempre em conta na preparação. É normal que os países sul-americanos estejam mais adaptados, mas a verdade é que, como já referi, estatisticamente as seleções europeias têm mais dificuldades nos Jogos Olímpicos, seja pela altura da época em que decorrem, pelas condições em que são disputados, é tradicionalmente complicado para essas equipas. Mas tudo faremos para inverter essa tendência.

 

O futebol é por vezes considerado um desporto à parte no programa dos Jogos Olímpicos. Disputa-se noutras cidades e como foi o seu caso em Atlanta 96, nem sequer viveu o espírito olímpico por estarem a milhares de quilómetros. Pode dizer-se que é uma espécie de parente pobre no programa olímpico?

Concordo plenamente com a designação. Até porque na realidade, o futebol é a única modalidade que não apresenta as suas melhores equipas. Olhamos para as restantes modalidades individuais ou coletivas e todos se apresentam na máxima força, com os melhores intervenientes. No futebol, pela limitação de idade, isso não acontece. Portanto, temos que reconhecer que não é a prova maior da modalidade, mas é importantíssima em termos mundiais e históricos, tendo muito orgulho em estar presentes mais uma vez e fazer o melhor possível. Por ser no Brasil, por ser um país com grande paixão pelo futebol, acredito que possamos ter um ambiente diferente, com muita gente nos estádios.

 

Nos últimos anos têm despontado novos valores no futebol português, seja por vermos alguns jogadores jovens chegar à seleção principal, seja pelos resultados positivos que as seleções jovens nacionais de futebol apresentam. O que mudou nos últimos anos?

Acima de tudo, o trabalho feito a nível de clubes, tem sido uma grande ajuda para nós em termos de seleções. Os clubes que fornecem a seleção mudaram as suas infraestruturas, com o aparecimento das Academias, melhorando as condições de treino e a qualidade do trabalho desenvolvido, as próprias competições que disputam, como a UEFA Youth League ou a Next Generation, aumentou o estímulo competitivo, permitindo crescer em qualidade. A nível de seleção continuamos esse trabalho que é feito nos clubes, também com rigor e qualidade, e temos vindo a conseguir alguns bons resultados. Mas mais importante que os resultados é ver os jogadores a imporem-se nas melhores equipas portuguesas, a chegarem a boas equipas internacionais e, claro, chegarem à seleção principal.