Deixou marca no Encontro Nacional de Esperanças Olímpicas o campeão Nelson Évora. A assinar o painel dos campeões olímpicos na entrada da Faculdade de Desporto da Universidade de Desporto e com um testemunho valiosíssimo deixado aos jovens atletas aspirantes à presença nos Jogos de Paris 2024.

Nelson Évora começou por lembrar que pratica Atletismo desde os sete anos e foi com graça que acrescentou: “Não sei o que é não fazer Atletismo.” Habituado a vencer desde muito cedo, Nelson recordou como foi campeão do no salto em comprimento do Festival Olímpico da Juventude Europeia, em 2001.

“A base da pizza que fazemos todos os dias é a paixão”, referiu Nelson às Esperanças Olímpicas, tendo deixado um conselho muito direto: “Se não gostarem daquilo que fazem agora, desistam.” E depois contou como tudo começou por ser difícil na sua carreira: “Saía da escola às seis e 25 e o autocarro partia às seis e meia, tinha de correr muito para ir ao treino.” No regresso, muitas vezes, voltava a casa a pé, desde o Campo Grande a Odivelas.

 

Relação com o treinador

O campeão olímpico faz depender o sucesso do atleta da relação com o treinador. E explicou porquê. “O treinador tem de ser o mentor, um pai. Graças a Deus tive o Prof. João Ganço, um pai para mim. Tive um muito bom mentor. Dou graças ao meu treinador por não ter queimado etapas na minha formação como atleta e como pessoa. A chave do sucesso está na perceção e na planificação do treinador. O treinador tem de estar sempre um passo à frente, tem de ser amigo.”

Nelson foi na sua intervenção muito crítico com “o sistema” que continua a dificultar a conciliação dos estudos com a prática desportiva de alto nível. Apesar da lei, “tudo está na mão dos professores. Esta é uma queixa contra o sistema. Um atleta tem de ser um bom estudante.”

Aos 20 anos, foi obrigado a tomar uma decisão, apesar de querer estudar. “Tive de decidir se queria ser atleta profissional, mesmo não tendo rendimento. Eu estava habituado a não ter nada. E deixei os estudos, mas não queria que isso fosse uma referência para estes jovens.”

Participante nos Jogos Olímpicos pela primeira vez em Atenas 2004, Nelson Évora lembra como ficou “em antepenúltimo. Foi desastroso.” Fora da final, recorda a atitude de João Ganço. “O meu treinador exigiu que eu vivesse a final. Fui à pista e vi coisas que me fizeram perceber que não estava preparado.”

Apesar de lutar contra “o sistema”, Nelson Évora confessa que sempre tentou que a “mensagem final fosse de amor.” Quis “ganhar medalhas para mudar a realidade.”

Também as lesões lhe têm colocado desafios em permanência. “Mais uma vez o sistema me pôs à prova. Tive de ir contra tudo e contra todos. Fui até contra teorias científicas que dizem que um atleta do triplo salto que partir a tíbia e cortar o perónio não pode voltar a saltar.”

Apesar da sua força de vontade, o campeão olímpico revelou as dúvidas que as lesões lhe suscitaram. “Eu tive vontade de desistir muitas vezes, mas nessa altura não dependia do meu treinador, mas de quem fazia a minha recuperação.” Foi depois muito taxativo: “Quando nós não conseguimos ninguém vai acreditar mais do que nós. Nunca fui pelo caminho mais fácil. Quero provar mais uma vez que é possível.”

Falar do futuro para Nelson Évora é falar com confiança, sempre. “Consegui sair do buraco, por isso valeu a pena.” O que o leva a procurar novas soluções técnicas em plena competição, que ele pensa não lhe terem permitido obter melhores resultados. “Se eu ganhar uma medalha nos Jogos Olímpicos foi por essa decisão, de sair da zona de conforto, de errar. Eu sei onde errei. Errar é bom, por muito que sejamos criticados.” Mas “quando temos a medalha no peito já faz sentido”, sublinha.

A carreira desportiva obrigou-o a faltar a “muitas festas de anos, batizados e casamentos. Nunca estou nas fotos de família, porque estou sempre em alguma competição”, explicou perante uma audiência que ficou rendida ao discurso e ao exemplo.

O Diretor do Departamento de Missões e Preparação Olímpica do Comité Olímpico de Portugal (COP) e chefe de missão aos Jogos Olímpicos Tóquio 2020, Marco Alves, incentivou as esperanças olímpicas a trabalhar para chegarem a Paris 2024. “Acreditem que vocês vão querer lá estar. Por isso, trabalhem, porque vai valer a pena.”

João Paulo Vilas-Boas, Presidente do Conselho de Representantes da FADEUP, diretor do Labiomep e vogal da Comissão Executiva do COP, deixou uma palavra de agradecimento aos participantes no ENEO: “A Faculdade está profundamente grata ao Comité por esta oportunidade, e está profundamente grata aos atletas. Nós gostamos muito de desporto.”

Encerrou a sessão Ulisses Pereira, vogal da Comissão Executiva do COP, tendo-se centrado em três ideias: “Satisfação. O COP está muito satisfeito pela forma como decorreu o segundo ENEO. Este tipo de iniciativas acrescenta valor. Agradecimento e reconhecimento. Este encontro foi o que foi pela parceria que foi estabelecida com a Faculdade. Queria deixar uma palavra aos muitos voluntários, aos atletas olímpicos que por aqui passaram, como o Nelson. E queria também destacar o espírito de missão da equipa do COP.” Por fim: “A terceira palavra é de esperança. Que muitos de vós estejam em Paris. E que os valores olímpicos, da Excelência, da Amizade e do Respeito, estejam permanentemente na vossa atividade.”

 

Testes e formação

No período da manhã, os atletas e os treinadores participantes no ENEO puderam passar por baterias de testes de controlo e avaliação do treino, a cargo do Labiomep, e de Nutrição, responsabilidade de Cláudia Minderico, da Direção de Medicina Desportiva do COP. Fizeram igualmente um exame odontológico.

Joana Gonçalves, gestora de projeto, promoveu uma ação de formação no âmbito do Programa de Integridade do COP, e o coordenador do Gabinete do Atleta, Ricardo Bendito, explicitou a ação da Comissão de Atletas Olímpicos.

António Varela e Ana Silva, do Departamento de Comunicação, abordaram as formas de comunicar através das redes sociais, enquanto Ana Bispo Ramires, da Direção de Medicina Desportiva, esclareceu os resultados do inquérito feito aos atletas no âmbito da psicologia.

 

 

 

 

Artigos Relacionados

Patrocinadores/Parceiros Nacionais