No dia em que se celebram 120 anos do arranque da primeira de edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, recuperamos o artigo publicado no número 136 da Revista Olimpo, a propósito da edição inaugural que teve lugar em Atenas em 1896.

 

Atenas 1896 – A teimosia de Coubertin , o casamento cancelado e as medalhas de prata que valiam ouro

Foi há mais de 120 anos que os Jogos Olímpicos da Era Moderna conheceram a sua primeira edição. Vivia-se o mês de abril de 1896 e Atenas, na Grécia, era o palco dos míticos Jogos originários da antiguidade grega, que tinham sido criados há precisamente 2672 anos. Contudo, no ano 393 A.C.,  o imperador romano Teodósio proibiu a realização do evento. Ao longo dos anos várias foram as tentativas de recuperar a tradição olímpica, mas sempre sem sucesso.

Seria um jovem aristocrata francês chamado Pierre Fredi, o Barão de Coubertin, um grande apaixonado pelo desporto, a pôr fim ao desaparecimento do maior evento multidesportivo do mundo. Educador inteligente e estudioso, Coubertin tinha a convicção de que o auge da civilização grega foi conseguido, em grande parte, pelo foco colocado nas atividades físicas e nos frequentes festivais atléticos. A derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana levou-o a concluir que as tropas francesas não possuam a preparação física adequada, pelo que fez dos Jogos Olímpicos a sua demanda.

Não se amedrontando com as infrutíferas tentativas de organizar uns Jogos Olímpicos, ao longo da história da humanidade, o Barão de Coubertin investiu parte do seu património em viagens por todo o mundo para conseguir angariar apoio para o seu projeto.

Em 1892 e após várias viagens, o Barão de Coubertin sentiu finalmente que a porta estaria a abrir-se, quando conseguiu a permissão da União Francesa dos Desportos Atléticos para levar o seu projeto adiante. O ano de 1984 seria decisivo nesse sentido, ano em que obteve a aprovação do Congresso Internacional de Paris para organizar a primeira edição dos Jogos. No mesmo ano, nove países fizeram uma reunião, em França, para definir as regras do evento.

A capital grega, Atenas, foi a cidade escolhida como sede dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna. A escolha teve por base a tradição e a história da competição. Contudo, esse não era o desejo inicial de Coubertin que tinha proposto o ano de 1900 e a cidade de Paris para acolher os Jogos, sob o pretexto da realização nesse mesmo ano e local da Exposição Mundial. Gorada a sua pretensão, juntou-se ao grego Demetrius Vikelas numa nova proposta, que definiria o ano de 1896 e Atenas como o palco do tão aguardado evento desportivo. Como resultado da proposta, Vikelas seria também eleito o primeiro presidente do Comité Olímpico Internacional.

Mas nem tudo foi fácil e vários percalços de ordem financeira quase fizeram cancelar a tão desejada ambição de Coubertin. Seria o milionário grego George Averoff a assumir a remodelação do Estádio Panatinaikón, em Atenas, e a viabilizar o evento, o que lhe valeu a construção de uma estátua em sua homenagem que ainda hoje se encontra à entrada do estádio.

A abertura dos Jogos foi um ato solene, naquele que à data era o evento desportivo com mais espetadores do mundo, cerca de cem mil pessoas, que lotaram as bancadas. A cerimónia ficou também marcada por um momento histórico, quando o rei da Grécia, George I, proferiu a famosa frase destinada a permanecer inalterável através do tempo: “Declaro abertos os Jogos Olímpicos”.

Esta primeira edição foi bem diferente do fantástico e organizado evento dos dias de hoje. Naqueles tempos, a maioria dos atletas estrangeiros pagava a viagem de seu próprio bolso e alguns competidores eram turistas de passagem pela cidade que acabavam por se inscrever para disputar as provas. E, assim como nos Jogos da antiga Grécia, esta edição inaugural foi reservada exclusivamente aos homens.

Ao todo, 241 atletas, de 14 países, disputaram nove modalidades diferentes. O destaque foi o grego Spyridon Louis, vencedor da maratona: a sua chegada solitária ao estádio levou a multidão ao delírio, fazendo com que o próprio Rei George I se levantasse da sua poltrona para aplaudi-lo.

O pastor e aguadeiro Spyridon Louis, então com 23 anos, correu os 40 quilómetros da prova em 2 horas, 58 minutos e 50 segundos. Depois da vitória, voltou à sua aldeia de Marousi com uma carroça e um cavalo presenteados pelo Rei George I e jamais voltou a correr. Para trás ficava também uma promessa de casamento de uma milionária grega ao vencedor da Maratona, que repensou a proposta quando viu que o vencedor era um humilde camponês e não um jovem de porte atlético como a mitologia grega o suporia.

Outros destaques dos Jogos de Atenas foram o norte-americano James Brendan Connolly, o primeiro campeão olímpico (na época, o atleta vencedor ganhava uma medalha de prata ao invés do atual ouro), 1.503 anos depois, ao vencer a prova do triplo salto, o alemão Carl Schumann, que venceu cinco provas em três modalidades distintas, e o velocista norte-americano Thomas Burke, que venceu a mítica prova dos 100m, sendo o único que adotou a posição no bloco de partida idêntica à ainda usada nos dias de hoje. Os jornais da época exultaram a vitória de Burke, sem deixar de realçar a “incómoda” posição que adotava na partida.

Curiosa foi também a prova de natação de 1.200m, em águas abertas, ganha pelo húngaro Alfred “Hajos” Gutmann. Apenas três nadadores chegaram à meta, tendo os restantes seis sido resgatados da água. Mais do que a vitória, Gutmann procurou a sobrevivência, motivo pelo qual chegou em primeiro lugar à meta, quando pensou que sucumbiria nas águas do Pireu. Quando recebido pelo Rei George I, foi questionado sobre como tinha aprendido a nadar assim. Lacónico, o húngaro respondeu “Na água, Sua Majestade”.

 

Países Participantes:

Alemanha

Austrália

Áustria

Bulgária

Chile

Dinamarca

Estados Unidos da América

França

Grã-Bretanha

Grécia

Hungria

Itália

Suécia

Suíça

 

Modalidades em competição:

Atletismo

Ciclismo

Esgrima

Ginástica

Halterofilismo

Lutas

Natação

Ténis

Tiro

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