Igualdade de Género no Desporto deu nome ao seminário que decorreu esta quarta-feira no Auditório Paquete de Oliveira, do Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em Lisboa, com a participação das atletas olímpicas Erica Wiebe, do Canadá, e Beatriz Gomes, de Portugal.

Teresa Fragoso, presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), abriu a sessão, chamando a atenção para um problema que considera comum no desporto: “Há discriminação desde logo em nas expetativas quanto aos resultados a alcançar por homens e mulheres.” E defendeu que existem questões por resolver:  “Os prémios pecuniários serem menores é dizer às mulheres que valem menos. O desporto deve ser um lugar de paridade, o primeiro a dar o exemplo de igualdade.”

A líder da CIG alertou igualmente para um dado estatístico revelador: apenas 14 por cento dos cargos nas federações desportivas no espaço da União Europeia são preenchidos por mulheres.

Lisa Rice Madan, embaixadora do Canadá em Portugal, esteve presente como uma das impulsionadoras do evento, tendo recorrido ao pensamento do antigo secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para mostrar como a igualdade de género é uma questão fulcral da sociedade atual: “Não é um tema que se esgota em si mesmo, é crítico para a paz.”

A diplomata canadiana anunciou que o governo do seu país tem o objetivo de atingir a igualdade de género plena no desporto, em todos os escalões, no ano de 2035.

João Paulo Almeida, diretor-geral do Comité Olímpico de Portugal (COP), assumiu o papel de moderador do debate, tendo, inicialmente, chamado a atenção para os baixos índice de prática de atividade desportiva dos cidadãos portugueses no desporto, em particular as mulheres.

Erica Wiebe, atleta olímpica do Canadá, medalha de ouro em Luta Livre, nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, foi uma das participantes no painel de debate e iniciou a sua intervenção com uma mensagem de esperança: “Acredito no valor do desporto e na sua força para mudar o mundo e as nossas vidas.” Mas observou que existe um problema de “transparência” que é preciso ultrapassar.

Beatriz Gomes, atleta olímpica de Portugal, em Canoagem, e vogal da Comissão Executiva do COP, defendeu que a “igualdade depende de participar, e em Portugal a participação é baixa”, tendo realçado uma questão que considera fundamental: “Os media não atribuem a mesma importância à participação dos homens e das mulheres, o que se reflete na existência de prémios e patrocínios diferentes.” No que foi secundada por Erica Wiebe: “Há muito trabalho a fazer com os media” também no Canadá.

“Nos Jogos Olímpicos continuamos a lutar por ter os mesmos desportos para homens e mulheres”, lembrou Beatriz Gomes, para quem “as mudanças estão a acontecer, mas há um problema cultural para ultrapassar.”

Rute Agulhas, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça, perita forense e professora assistente convidada do ISCTE, comentou os problemas de assédio sexual existentes no desporto, sublinhando que “as pessoas devem estar preparadas para a revelação de abusos sexuais. E não estão.”

Nesta questão, Erica Wiebe enfatizou a necessidade de existir uma instância a que os atletas assediados possam recorrer. “A quem é que me vou queixar?”, perguntou. “Vou queixar-me do treinador ao supervisor? Mas eles são pares. Tem de haver alguém independente a quem se possa reportar.”

A campeão olímpica do Canadá diz haver uma “cultura de medo” e que já teve de “lidar com algumas situações de assédio.”

Joana Alexandre, professora auxiliar do ISCTE e investigadora do CIS-IUL, alertou para o problema particular que se coloca ao desporto, que “começa nas escolas. Lá o desporto não é valorizado. O desporto não conta tanto como as outras disciplinas.” E João Paulo Almeida deixou a interrogação: “Como é que poderemos ter políticos e decisores conscientes da importância do desporto quando na escola viam que era observado como um tema menor?”.

A investigadora do CIS-IUL abordou também o estereótipo existente no desporto e que é revelado na obrigação, imposta pelas federações, das mulheres usarem determinado tipo de equipamentos que lhes exponham o corpo. “Por que é não existe liberdade de escolha?”.

Finalmente, o painel falou da necessidade ou não de haver quotas que imponham a igualdade de género nas organizações e Joana Alexandre defendeu que são uma “discriminação positiva. Quando há oito lugares numa administração e são todos preenchidos por homens, não se consegue encontrar uma mulher com qualidade? Precisamos de pequenos passos para grandes oportunidades”, sublinhou.

A encerrar o seminário falou José Manuel Constantino, presidente do COP. “A igualdade de género é um problema que atravessa toda a história do desporto, desde a antiguidade”, começou por lembrar. “As mulheres não podiam participar e mesmo quando Pierre de Coubertin decidiu restaurar os Jogos, as mulheres ficaram à margem. Só começaram a competir em Paris 1900. Hoje muito mudou e o Comité Olímpico Internacional está muito empenhado no assunto, como se viu nos Jogos Olímpicos da Juventude, onde pela primeira vez houve paridade no número de atletas participantes e se disputaram provas combinadas.”

O presidente do COP lembrou que  atualmente “há novas questões. As pessoas que mudam de sexo, como se podem integrar nas competições? É uma matéria complexa para a qual não há solução definitiva. É uma situação para acompanhar de mente aberta, com prudência.”

A organização do seminário teve como parceiros a Embaixada do Canadá, Comité Olímpico de Portugal, Portugal Mais Igual – Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação, Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e ISCTE.

 

 

 

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