“Isto já não é divertido: algumas reflexões sobre a adversidade no desporto” é o título do livro de Juan Antonio García Herrero que enquadrou a conferência proferida esta segunda-feira em Lisboa, a convite do Comité Olímpico de Portugal (COP) e da Confederação de Treinadores de Portugal.

Doutorado em Educação Física e especialista em coaching, liderança desportiva e educação, Juan Antonio García Herrero é treinador de Andebol há mais de 25 anos, lecionando igualmente na Faculdade de Educação da Universidade de Salamanca.

Ana Bispo Ramires, psicóloga que integra a Direção de Medicina do COP, apresentou a conferência, “de natureza muito importante para quem está no terreno”, num tempo em que se “valoriza talento e não trabalho e tenacidade” e no qual se assiste à “propagação de soluções de consumo rápido.”

García Herrero lançou a conferência, que teve o secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo, na assistência, recorrendo ao exemplo de Gerard Carmona, jogador espanhol de andebol que resistiu a quatro operações ao joelho e continuou a jogar. “É um caso inspirador”, considerou, para introduzir a questão fundamental: “O que entendemos por adversidade?”

O treinador e académico espanhol abordou a resiliência como a capacidade de adaptação a uma situação difícil, citando o estudo de Emmy Werner, de 1993, “Vulnerável mas invencível”, para sublinhar que os indivíduos resilientes tinham pelo menos uma pessoa do seu ambiente familiar a apoiá-los incondicionalmente.

Ideias-chave

“Mais do que divertido, o desporto deve ser formativo.”  Esta foi a primeira ideia-chave explicitada por García Herrero, durante a conferência. “O desporto, quando as coisas não saem, não se deve abandonar, não se pode desligar”, disse, usando uma analogia com os jogos de vídeo, em que os jogadores desligam a máquina quando estão cansados.

O atleta só tem direitos? Não tem nenhum dever, nenhuma responsabilidade?

Neste ponto, García Herrero exemplificou com o pai que exigia os mesmo direitos para o filho que treinava menos do que os companheiros de equipa. “O desporto tem de ser formativo, por isso o seu filho não joga”, explicou a quem lhe pediu explicações para o facto do filho não jogar tanto como os companheiros de equipa e defendia que o desporto deveria ser formativo. “Todos somos iguais” e “todos merecemos o mesmo” não são o mesmo, defendeu.

Desporto e felicidade. A dificuldade é diferente de sofrer. “O desporto não é justo, nem sempre te devolve tudo aquilo que dás, nem te trata com carinho”, sublinhou o treinador espanhol. E reforçou que não defende o “treinador tirano. O medo desmobiliza. A grande dificuldade está em criar um laço entre o treinador e o jogador, construir uma relação especial que transcenda o treino e dê sentido a tudo o que fazem juntos.”

García Herrero recorreu também ao exemplo Ruth Beitia, campeã olímpica de salto em altura no Rio 2016, para explicitar a relação atleta-treinador. A atleta quis abandonar a carreira depois do 4.º lugar nos Jogos Olímpicos Londres 2012, mas Ramón Torrado, o treinador, conseguiu convencê-la a voltar e o regresso foi coroado de êxito. Ela não se esqueceu na altura da celebração: “Metade da medalha é do meu treinador.”

Primeiro o vínculo, depois a adversidade. “Não somos pagos para levar os atletas ao inferno, mas para que estejam dispostos a acompanhar-nos”, defendeu igualmente, quando se tratou de estabelecer a prioridade no relacionamento entre as duas instâncias.

Exigência ou auto-exigência? E a responsabilidade do atleta?

García Herrero recordou, a este propósito, um episódio do tenista Rafael Nadal e do seu treinador e tio. Perguntaram a este se não estava a ser menos exigente, perante uma baixa de resultados, ao que respondeu: “Agora é ele que me exige”. E o académico espanhol defendeu: “Não pode ser o treinador o motor da exigência de forma permanente. Eu quero os jogadores a treinar com intensidade e sei como fazê-lo, intimidando-os. Mas não quero seguir esse caminho, devo criar um ambiente de auto-exigência.”

Não é o mesmo ensinar a jogar que ensinar a competir. “Ensinar a jogar é ensinar competências. Competir trata-se de ter força de vontade, caráter, enfrentar as dificuldades. Se as dificuldades não te afetam ou afetam pouco sabes competir”, explicou García Herrero.

O que podemos fazer diante da adversidade? Para responder a esta questão, o convidado do COP e da Treinadores de Portugal recorreu à obra de Ferrer Dalmau, que pintou “Rocroi”, a batalha entre franceses e espanhóis no século XVII, onde “homens não deram quartel à adversidade”. E García Herrero rematou com o recurso a três palavras-chave: “Firmeza, persistência, perseverança”, que ilustram a melhor atitude para enfrentar a adversidade.

Veja a reportagem no Canal COP.

 

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