A 2ª edição do Fórum da Integridade no Desporto, realizado no dia 26 de julho pela Sport Integrity Global Alliance (SIGA), reuniu em Lisboa uma vasta audiência desperta para os grandes desafios que o setor enfrenta: a integridade, a boa governação das organizações, a proteção de menores e o risco de contaminação do valor e da reputação que as marcas correm.

O Comité Olímpico de Portugal (COP) é uma entre as cerca de 100 organizações que constituem a SIGA e, na abertura do Fórum, o seu presidente, José Manuel Constantino, alertou para a existência de um quadro crítico que exige ação: “Se não soubermos preservar o desporto, se formos incapazes de cuidar dos seus valores e princípios fundamentais, se não salvaguardarmos a sua integridade, se o não colocarmos ao serviço do desenvolvimento social e humano conforme se encontra consagrado na Carta Olímpica todo o valor formativo do desporto se perde.”

Os problemas referidos pelo presidente do COP são muitos e variados. “Diariamente somos inundados com episódios de manipulação de resultados, apostas ilegais, infiltração criminosa, corrupção, tráfico de menores, fraude fiscal, branqueamento de capitais ou tráfico de influências que usam o desporto para florescer proveitos de origem criminosa.”

Os passos que se seguem, no entendimento de José Manuel Constantino, não se esgotam rapidamente e os resultados nem sempre serão os esperados. “Sabemos bem que a batalha da Integridade se trata de um processo interminável e de melhoria permanente. Um longo caminho a percorrer, tantas vezes marcado pela frustração entre o que almejamos e aquilo que alcançamos. Marcado pelo desinteresse e alguma ignorância” (discurso integral em anexo).

Michael Payne, antigo diretor de marketing e comunicação do Comité Olímpico Internacional, foi o orador principal do Fórum e recordou a panorâmica caótica que tem sido o dirigismo do desporto nos tempos mais recentes: “Lidamos com um colapso de confiança na liderança do desporto sem precedentes: 42 membros da FIFA foram postos em xeque, Angel Villar está na prisão, e a IAAF também enfrenta grandes problemas. Tal como o boxe. A tentação de corromper cresceu nas federações com a gestão de valores cada vez maiores.”

AGIR JÁ

No decorrer do painel “Boa governação no desporto: da retórica às reformas efetivas”, Ivi-Triin Odrats, membro da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, defendeu a necessidade do aparecimento de “novos agentes, com novas ideias e capazes de implementarem novos padrões”, mas o coordenador da SIGA, Emanuel Medeiros, defendeu que não é possível esperar mais: “Não precisamos de esperar por uma nova geração de líderes, o que há a fazer não pode esperar mais um dia”, referiu, elogiando depois a nova atitude assumida pela UEFA: “Bravo pelas recentes reformas que fez, o tempo de agir é agora.” O dirigente português quis acentuar a vontade de passar à ação: “Não estamos à espera que as organizações desportivas internacionais ajam. As reformas que advogamos são concretas, estão escritas e são palpáveis. Temos já seis grandes organizações que estão a avançar com estes standards. No fórum de hoje discutimos as questões até ao osso. Trabalhamos com o desporto, em prol do desporto e para o desporto.”

Luís Ribeiro, inspetor da Polícia Judiciária (PJ) ligado à operação “Jogo Duplo”, alertou, durante o painel “Seguindo o rasto do dinheiro – o caminho para a integridade financeira no desporto”, para os problemas que existem na 2.ª Liga de futebol, em Portugal, onde “grande parte do capital dos clubes não é detido por portugueses”, surgindo dúvidas em relação ao que move os investidores. “Não nos parece um investimento racional, porque nestes casos nem há ligação afetiva que o justifique.”

O inspetor da PJ abordou também o tema dos “off-shore” como “forma de não pagar impostos”, salvaguardando que esse não é um problema circunscrito ao desporto, por ser “global”.

José Guerra Álvarez, diretor de La Liga, informou sobre as práticas seguidas em Espanha. “Fazemos as perguntas necessárias para saber se o dinheiro está limpo, mas o que se passa lá fora não conseguimos controlar.” Responsável pelo controlo económico dos clubes, Guerra defendeu que o negócio do futebol “tem de ser feito com o dinheiro que ele próprio gera.”

Para haver integridade financeira no desporto, Pedro Machado, partner da PwC, voltou a insistir na necessidade de “conhecer a origem do dinheiro” e defendeu que tal é possível: “Seguir o dinheiro é possível, na perspetiva do supervisor. Se a origem é as Ilhas Virgens e, apesar de haver passagens por outros países, temos de ir às Ilhas Virgens.”

O diretor-geral do COP, João Paulo Almeida, participou no painel “Integridade nas apostas desportivas: soluções globais para ameaças globais”, tendo referido que “a infiltração das organizações criminosas no desporto não se resume aos resultados combinados, e não é um problema exclusivo do desporto, é um problema de ordem pública e de criminalidade internacional.”

MENORES EM XEQUE

O painel “Desporto de formação e proteção dos menores” elencou os cinco temas principais que se relacionam com jovens praticantes: “abusos, agressão sexual, física e emocional; saúde; exploração para fins comerciais e financeiros; tráfico humano; negação de magnitude da questão e necessidade de salvaguardas”. Todos foram considerados urgentes numa organização desportiva.

Chamado a intervir, Francisco Guimarães, de 20 anos, treinador da equipa sub-19 do 1.° Dezembro, deu testemunho do seu exemplo e impressionou a audiência do Fórum. “Para que joguem bem, temos de perceber se os jovens jogadores estão bem nas suas vidas. É esse também o papel do treinador. Antes do drible está quem faz o drible. Primeiro precisamos cuidar do homem.”

O “magriço” António Simões, membro da Seleção Nacional de Futebol que foi 3.ª classificada no Mundial de 1966, também presente na plateia, fez uma consideração que arrancou aplausos: “Sou um bom ser humano porque pratiquei este jogo.”

Contributos para proteger as crianças, o painel moderado por Michael Pedersen apontou quatro: “envolver parceiros importantes no desenvolvimento de soluções; existência de treino adequado para todos os agentes; conhecer registo criminal dos envolvidos; e estabelecimento de indicadores-chave de performance.”

No último painel, “Os negócios do desporto, o valor das marcas e a reputação das organizações desportivas”, foram avaliados os danos que os problemas de integridade têm causado a organizações desportivas e sponsors, e a audiência foi desafiada a nomear casos de desportistas que podiam ser considerados também uma marca e acabaram por depreciá-la de forma irreversível. Foram apontados quatro exemplos: Tiger Woods, Maria Sharapova, Lance Armstrong e Ben Johnson – os três últimos ligados a escândalos de doping.

As conclusões do Fórum foram apresentadas pelo comentador Luís Marques Mendes.

Na sessão de encerramento, o secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo, alertou para os problemas que a falta de integridade na gestão das organizações tem causado: “A boa governança implica respeito por princípios éticos, jurídicos e de transparência. Sem estes será difícil a sustentabilidade das federações nacionais e internacionais. Em Portugal há casos práticos de federações que acabaram por ruir e prejudicar os atletas.”

O governante português considerou estarem a ser feitos progressos: “Portugal tem estado na linha da frente e foi o primeiro estado membro da União Europeia a ratificar a Convenção do Conselho da Europa sobre a Manipulação de Competições Desportivas.”

VALORES OLÍMPICOS

Rosa Mota, vice-presidente do COP e embaixadora da SIGA, foi homenageada pelo Fórum e fez um discurso que emocionou: “Porque acredito que num desporto sem verdade e sem integridade todos perdem continuarei a empenhar todas as minhas energias para que os atletas representem os mais elevados valores, os valores consagrados na Carta Olímpica, aqueles que juramos na abertura dos Jogos: a amizade, o respeito e a excelência.”

A campeã olímpica da maratona, em Seul’1988, deu um voto de confiança ao Fórum: “Reconheço nas entidades que compõem a SIGA um espírito reformista e uma capacidade liderante para proteger os atletas e as organizações desportivas de uma ameaça crescente que corrói os pilares fundamentais que nos unem em torno deste bem inestimável e desta paixão que é o desporto. Contem comigo, pois conto com todos vós para travar, como o fiz nas pistas, esta batalha sem tréguas até à última gota de suor.”

A finalizar o Fórum foi empossado como um dos seus embaixadores o atleta dos Special Oympics, Gilmour Borg.

Esta quinta-feira decorreu a Assembleia Geral da SIGA e nela foi designado para administrador não executivo o juiz italiano Franco Frattini, para além de terem sido aprovados regulamentos, regimentos e códigos da organização.

Recorde-se que a SIGA é uma aliança independente e neutral composta por entidades internacionais multi-indústria. É a única organização a reunir o desporto, governos, a universidade, organizações internacionais, patrocinadores, empresas, detentores de direitos, ONGs e empresas de serviços profissionais, de todas as regiões do mundo, em torno de uma causa comum: promover maior integridade no desporto.

Os membros e apoiantes da SIGA incluem, entre outros, Mastercard, Deloitte, as Ligas Europeias de Futebol Profissional, Dow Jones, PwC, o Banco Mundial, o Centro Internacional de Segurança Desportiva, o Instituto de Basileia sobre Boa Governação, a Federação dos Jogos da Commonwealth, a Associação dos Comités Olímpicos Nacionais das Caraíbas, Special Olympics, Liga Espanhola de Futebol, Comité Olímpico de Portugal, eSports, World Taekwondo, Federação Internacional de Artes Marciais Mistas, World Snooker e European Aquatics.

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