O Comité Olímpico de Portugal assinalou esta sexta-feira o Dia Internacional do Desporto para o Desenvolvimento e a Paz com a realização de um debate em que participaram Elisabete Jacinto, atleta e presidente da Comissão de Mulheres e Desporto do COP, Pedro Adão e Silva, professor universitário e comentador, e José Goulão, jornalista e comentador especializado em assuntos do Médio Oriente. A moderação esteve a cargo de Maria Flor Pedroso, jornalista da RTP/Antena 1.

O presidente do COP, José Manuel Constantino, abriu a sessão lembrando que as Nações Unidas fizeram coincidir a celebração da data com o aniversário dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, realizados em Atenas, Grécia, em 1896.

Elisabete Jacinto sublinhou que no caso da modalidade desportiva que pratica, o automobilismo todo-o-terreno, existiu a tendência para aproveitar as provas para palco de conflitos, nomeadamente o Rali-raid Dakar: “Quiseram dar nas vistas ou chamar a atenção para reivindicações” de organizações locais, em contraciclo com o espírito de união que tem marcado o desporto noutros eventos e lugares.

A presidente da Comissão de Mulheres e Desporto recordou casos críticos em que as competições automóveis em que participou passaram em locais de guerra, designadamente com o rebentamento de uma mina que originou danos pessoais e materiais. “Foi um momento terrível”.

Na sua intervenção inicial, Pedro Adão e Silva defendeu que o desporto “é por definição um fenómeno ambivalente”, no sentido em que se trata de “um espaço de afirmação pessoal”, mas também “desenvolve uma pertença identitária chauvinista”, referindo ainda que “a ideia da paz e do desenvolvimento tem reminiscências na Antiguidade.” E deu o exemplo das tréguas olímpicas: “Tinham um lado aspiracional; na atualidade os Jogos Olímpicos desenvolvem uma visão humanista sobre o Mundo.”

Pedro Adão e Silva citou o antigo secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para lembrar como o desporto pode ser poderoso para o desenvolvimento e a paz: “As tréguas olímpicas têm um potencial ilimitado.”

A intervenção inicial de José Goulão centrou-se na questão do doping, antes suscitada com a alusão a “Ícaro”, documentário premiado pela Academia de Hollywood: “Faz-me confusão que as autoridades não atuem perante uma denúncia destas.” E foi mais longe: “Fomos vigarizados em sete voltas a França.”

Neste ponto, Pedro Adão e Silva argumentou não se poder equivaler “o doping de estado ao doping individual. Não tenho nenhuma evidência que o doping de Lance Armstrong tenha sido arquitetado pelas autoridades norte-americanas.” Ao que José Goulão respondeu que não faz distinção entre o doping de estado e o doping dos laboratórios. “Como é que ele [Armstrong] ganhou sete voltas a França e nada aconteceu?”, questionou.

Maria Flor Pedroso suscitou o exemplo dado por José Mourinho na promoção de um jogo de futebol entre palestinianos e israelitas como forma de aproximar os dois povos, mas José Goulão foi claro na sua conclusão: “A iniciativa foi muito bem intencionada, como o foram os concertos em Ramallah. São atitudes morais, positivas, mas nada resolvem.” Lembrou depois como o início da invasão da Tchetchénia pela Geórgia, quando na mesma altura se celebrava o início dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, foi “a antítese da trégua olímpica.”

Por contraponto, José Goulão sublinhou como o “desporto tem a capacidade de sublimar a própria guerra”, expressa nas modalidades desportivas de tiro, artes marciais, luta ou boxe.

“O desporto é a atividade mais pacifista que existe”, disse José Goulão, lembrando o caso da África do Sul, “quando Nelson Mandela se instituiu capitão da seleção de râguebi” campeã mundial, num país dividido.

Elisabete Jacinto encerrou o debate considerando que “o desporto é uma ferramenta fundamental na educação dos jovens”, deixando um pedido: “Temos de fazer um esforço coletivo para valorizar o desporto.”

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