“Violência no Desporto”. O tema da conferência realizada pela Comissão de Arbitragem e Ajuizamento Desportivo (CAAD) do Comité Olímpico de Portugal (COP) colocou o árbitro no centro de um problema social longe de ser exclusivo do espetáculo desportivo. Não aceitar a agressão e ter coragem de denunciar são dois dos requisitos a cumprir para travar a violência no desporto e dependem muito dos árbitros, defendeu-se no auditório do COP, preenchido por uma audiência interessada em debater um problema sem solução, apesar dos esforços legislativos e da ação das autoridades.

João Paulo Almeida, Diretor-Geral do COP, abriu os trabalhos sublinhando a oportunidade de discussão do objeto da conferência: “Este é um tema de enorme relevância, que está na ordem do dia, não pelas melhores razões.” No que foi complementado por José Araújo, Presidente da CAAD do COP: “Infelizmente, é um tema sempre atual.”

Diogo Nabais, da Secretaria de Estado da Juventude e Desporto, enquadrou as medidas tomadas pelo Governo nesta matéria, com a comunicação “Violência no Desporto – prevenção e combate”.

“A violência é um fenómeno social”, não exclusivo do desporto, “e não é um problema de agora”, referiu Nabais, esclarecendo que o problema em Portugal é enquadrado pela lei de 2009, alterada por três vezes, a última das quais em 2019.  Posteriormente, entendeu-se criar a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD), com o objetivo de “diminuir a pendência, e garantir a eficácia e celeridade de análise nos processos.”

O lançamento da campanha Violência Zero foi feito, segundo Diogo Nabais, de modo a “sensibilizar para o fenómeno” da violência, “promovendo os valores éticos.” O objetivo final é “erradicar a violência no desporto” e “cada um tem de fazer a sua parte”, alertou.

Paulo Fontes, da APCVD, esclareceu o conceito de violência, que “não é apenas a aplicação da força física”, mas “é também psicológica. A violência é interpessoal e  coletiva, tem um ecossistema. A sociedade que tolera a violência permite aumentar os fatores de risco que geram mais violência.”

A APCVD tem passado muitas contra-ordenações a promotores desportivos que não têm regulamentos de segurança em vigor, mas, explicou Paulo Fontes, “está a trabalhar de forma pedagógica nesta área.”

Na sequência das comunicações de Diogo Nabais e Paulo Fontes, “O árbitro vítima de violência” foi tema para um painel de debate moderado por Paulo Duarte, da CAAD do COP.

Hugo Miguel, árbitro internacional de Futebol, deu testemunho da sua experiência e congratulou-se com o facto de Portugal não ser comparável a países como a Grécia em matéria de arbitragem. “E esperemos que não caminhe para lá”, disse. Sentimo-nos uns felizardos, somos bem acompanhados” pelas autoridades.

O árbitro internacional revelou ter sido alvo de violência no início da carreira. Um jogador juvenil tentou agredi-lo e o primeiro impulso foi desistir. “O mais fácil é a fuga, a desistência”, por isso há uma taxa de abandono significativa entre árbitros em início de carreira.

Hugo Miguel revelou que a alteração das nomeações dos árbitros para os próprios dias dos jogos lhe aumentou a qualidade de vida: “Dá-nos tranquilidade, a nós e às nossas famílias”, por ter diminuído as probabilidades de existirem pressões.

Sofia Costa, árbitra de Voleibol, referiu que a forma de violência mais frequente na sua modalidade “é a psicológica, mas já houve o caso de uma colega agredida que chegou a desmaiar.”

“Há muita falta de empatia” entre a audiência do espetáculo desportivo” no relacionamento com os árbitros, defendeu. “As pessoas têm grande dificuldade em colocarem-se na pele do outro.” Ser mulher não tem sido um problema. “Sinto desconfiança inicial, mais por ser jovem do que por ser mulher”, sublinhou Sofia Costa.

O Comissário da Polícia de Segurança Pública (PSP), Iúri Rodrigues, Chefe do Núcleo de Cooperação e Assessoria Técnica – Ponto Nacional de Informações de Desporto, deixou alertas diretos aos árbitros. “A agressão a um árbitro é um crime público. Os árbitros não podem tolerar ser vítimas de violência. Todos temos de ter coragem de denunciar”, defendeu.

Iúri Rodrigues deu depois exemplo de uma forma de intolerância positiva: “Os incidentes com a pirotecnia têm vindo a baixar e, felizmente, nós não toleramos isto.” O Comissário da PSP chamou a atenção para a necessidade de haver um guião na atuação dos árbitros. “É importante que os árbitros se preocupem com a sua segurança,  que conheçam o terreno, tenham um plano de contingência, saibam com quem falar.”

Luciano Gonçalves, Presidente da Confederação das Associações de Juízes e Árbitros de Portugal, informou ter “havido uma redução do número de situações de violência no futebol”, cifrando-se em dez na época a decorrer. E desenvolveu uma tese: “O nosso problema principal é a falta de cultura desportiva, perdeu-se o respeito pelo outro. Violência é um problema de sociedade, não é um problema do desporto. Todos nós podemos fazer muito mais.”

O segundo painel, intitulado “O árbitro na prevenção da violência”, foi moderado por Avelino Azevedo, da CAAD do COP e abriu com a intervenção de João Fernandes Costa, árbitro internacional de Rugby. ” O árbitro deve ser um elemento fundamental na prevenção da violência no desporto”, defendeu, apontando o briefing inicial com os capitães de equipa como fundamental, para todos os intervenientes ficarem a saber o que se pretende do jogo.

Na formação, o árbitro deve atender ao nível de conhecimento que os jogadores têm do jogo, “é responsável por manter a segurança deles.”

Nuno Martins Carvalho, da Comissão de Arbitragem da União Europeia de Judo, sublinhou que “o respeito pelo outro” é o valor máximo a defender. “Se houver respeito pelo outro não haverá violência física ou verbal” e deu o exemplo de como as sanções no Judo são imediatas, de forma a promover o respeito. “O árbitro deve ser reconhecido como figura competente e imparcial”, estando obrigado a preservar as suas qualificações através de formações contínuas.

O Major Gonçalo Serrão, do Comando Operacional da Guarda Nacional Republicana, deu exemplo de espetáculos desportivos cuja realização foi alterada por proposta das autoridades, por falta de condições das infraestruturas, tendo esclarecido que existem muitos eventos desportivos cuja segurança policial é dispensada, fruto da avaliação realizada.

 

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